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Lula solto. Bolsonaro livre?

Meu compromisso seria retomar a rota iniciada no artigo da semana passada, quando tratei da relação da imprensa com a política e firmei a minha opinião sobre o papel dos jornalistas como agentes políticos, que não conseguem, ainda que queiram, agir com isenção.

Contudo, preciso mudar o rumo da conversa, porque Lula voltou às ruas com base numa decisão do Supremo Tribunal Federal, fato que desejo comentar sob a ótica da imagem e dos conceitos da estratégia, ferramenta que avalia oportunidades, ameaças, pontos fortes e frágeis e cria mecanismos para que se conservem as conquistas.

O STF saiu com a imagem arranhada? Muito, apesar dos ministros, terem dado, no passado, uma no cravo e agora, outra na ferradura. Somos uma nação rachada ao meio desde 2014. Então, era de se esperar que, ao agradarem uma parte do povo com a prisão em 2ª instância e a outra parte, agora, com uma sentença inversa, os ministros tivessem zerado o jogo. Não zeraram, porque com relação à imagem, os ministros, na verdade, abriram uma segunda cicatriz na face.

O Supremo Tribunal Federal é, por definição, o guardião da Constituição e ao decidir sobre a aplicação dela não deveria ter dúvida. E, certamente, não tem. As decisões que contrariam decisões anteriores têm outro motivo. A Corte, como a imprensa, é formada por homens e mulheres com histórias de vida, simpatias e antipatias próprias, que se comunicam numa linguagem também muito própria. Ela lhes permite dizer a mesma coisa de modos mil vezes diferentes e coisas diferentes de mil modos iguais. O Supremo tem, além desses, outro argumento para as decisões controversas: o legislador brasileiro faz leis com jeitinho.

Há algum mal nesse modo do Supremo se relacionar com as leis e com a população? Se há, ele vem do início da nossa história, tempo suficiente para a gente aceitar o fato como tradição e ter menos aborrecimentos. Os livros “Tanques e Togas” e “Os Onze, o STF, seus bastidores e suas crises” dão boa mostra de como os ministros da Corte são humanos comuns com vigor político. No capítulo que comenta as consequências da morte do Ministro Teori Zavascki, “Os Onze” registra uma declaração do ex-ministro Sepúlveda Pertence sobre o STF. Diz ele: “O Supremo é um arquipélago de onze ilhas incomunicáveis”.

Para mostrar que o modelo não é exclusivo do Brasil, o livro continua a definição com a declaração do juiz da Suprema Corte americana, Oliver Wendell Holmes sobre o tribunal dele: “Nove escorpiões numa garrafa”. “Tanques e Togas” e “Os Onze foram escritos pelo jornalista Felipe Recondo, o segundo em parceria com Luiz Weber, jornalista e mestre em Ciência Política.

Nesse contexto, alguns perguntam: “Onde estará a segurança jurídica?”. Está em sabermos que as leis e decisões judiciais, em nossa terra, funcionam ao sabor dos ventos da política.

Antes que termine meu espaço, pulemos algumas casas para chegar ao Lula nas ruas. É o caso de se perguntar: E agora, para onde irá a política? Irá, com mais velocidade, para os extremos, dando ao centro, o destino que Cristo deu à igreja em Laodicéia: “…Assim, porque és morno e nem és quente nem frio, estou a ponto de vomitar-te da minha boca” (Apocalipse 3:16).

E a batalha entre os extremos, quem vencerá? É cedo para saber, mas com Lula solto, Bolsonaro perde a liberdade para fazer o que anda a fazer por aí se quiser conquistar outro mandato. Mas, ele ganha a oportunidade de receber de volta os apoios que vem perdendo de antigos eleitores e aliados e tudo deveria fazer para conservá-los porque, na vida, não há insubstituíveis.

Para não termos o PT de volta ao poder, nós substituiremos Bolsonaro se ele não for a garantia que precisamos. Os liberais, certamente, têm bons personagens.

*Artigo publicado no Boletim da Liberdade.

Por Jackson Vasconcelos

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A imagem não perdoa a incoerência

Para reforçar a imagem em alta hoje no Brasil de crítico do PT, Kim Kataguiri tentou usar o ataque que as facções criminosas do Ceará fazem contra o povo de lá e não foi muito feliz, porque não resistiu ao contraditório. Kim Kataguiri representa o Movimento Brasil Livre, está eleito deputado federal pelo DEM com mais de 400 mil votos por São Paulo e aguarda o dia da posse.

Ele gravou e veiculou um vídeo para denunciar o governador do Ceará, que é do PT, por uma manobra política. Ele abriu dizendo: “Pessoal, tenho uma denúncia muito grave para fazer: O que tá acontecendo no Ceará hoje, todo esse caos, toda essa violência, toda essa criminalidade, não é por acaso. É de caso pensado. É um cálculo. É um planejamento. É uma estratégia política, absolutamente, nojenta, que está sendo levada em frente pelo governador petista Camilo Santana…”.


Kim Kataguiri criou o desenho de uma maquinação, que passou pela ideia de repetir a Venezuela, justificar o argumento do PT de ter existido um golpe e outros elementos mais, até chegar à intenção do governador do Ceará de tentar derrubar o presidente Jair Bolsonaro.  

Ciro Gomes, aliado do Governador do Ceará respondeu, imediatamente, com o estilo de sempre, duríssimo:

“Aqui no Ceará somos um coletivo de muitos homens e mulheres trabalhando hoje sob a liderança do governador Camilo Santana. Assim, diante de um problema tão grave, potencialmente, como a onda de terror que as facções criminosas tentam impor ao nosso povo trabalhador o que se impõe a nós é agir e não falar. Candidatos falam, é o que podem fazer, governantes decidem, é o que têm que fazer.

Mais de 570 celulares foram apreendidos nos presídios, 148 bandidos foram presos, três morreram, nenhum civil, e nenhum policial foi ferido. A ação está sendo feita com o importante apoio da força nacional e de outras forças federais. Os cearenses somos gratos por este apoio e não deixaremos diferenças políticas ou partidárias nos tirar do caminho que nosso dever nos impõe: restaurar a ordem e a paz públicas.

Isto dito, pedi permissão ao Governador Camilo Santana para repudiar, com toda a força, as palavras criminosas de dois irresponsáveis destes tantos que infernizam a vida brasileira: deputados de primeira viagem ligados a esta verdadeira facção criminosa que age na internet, o MBL.

Na ânsia incontida de aparecer, estes dois delirantes foram para a internet anunciar um pseudo trama em que, pasme a opinião pública brasileira, todo o sofrimento que passamos juntos com nosso povo seria um plano político maquiavélico para apimentar nossa discordância política com o atual presidente.

Canalhas! É o que são vocês dois! Respeitem o Ceará, respeitem nosso povo, respeitem nosso sofrimento. O que fizeram é simplesmente deplorável, e apenas junta suas vozes à de marginais que tentam aterrorizar nossa gente”.

Kim Kataguiri voltou, meio desconcertado. Pela maneira como ele iniciou o discurso, passou a impressão de ter sido repreendido ou melhor orientado por um senador ligado ao MBL do Ceará. Disse ele:

“Pessoal, mais informações sobre a crise no Ceará. Aliás, aproveito para trazer para vocês mais conteúdo do pessoal lá do Ceará. Especialmente, agradeço ao senador Eduardo Girão, que me ligou me informando exatamente o que está acontecendo. Então, tenho algumas correções para fazer em relação ao vídeo anterior e uma novas críticas a fazer para esse vídeo…

Bem. Basicamente, o que está acontecendo no Ceará – por incrível que pareça – vou começar o vídeo fazendo um elogio a um governador petista . O governador Camilo Santana contratou um novo Secretário de Segurança. Esse novo Secretário de Segurança é capaz, é técnico, é experiente. Não foi nenhum tipo de negociação. Não foi nenhum tipo de indicação política. Ele está lá, porque já demonstrou saber fazer o trabalho para combater as organizações criminosas… Isso quer dizer que o governador não tem culpa nenhuma no que está acontecendo? Não…”.

Daí pra frente, o deputado Kim voltou ao bombardeio… E com algumas contradições, a mais forte delas, quando muda completamente o rumo dos ventos. No vídeo anterior, afirmou que o governador reeleito pediu a ajuda do Governo Federal só agora, para forçar o uso pelo presidente da república da Força Nacional com o objetivo de desestabilizar o governo federal. No novo vídeo, o pedido da ajuda não ocorreu antes, no governo anterior, porque isso prejudicaria a imagem do presidente anterior.

Enfim, que imagem passou o deputado Kim de toda a situação? É isso que nos interessa aqui. Ficou a imagem do oportunismo, do uso político de uma situação altamente grave e cruel para a população do Ceará, simplesmente, porque o segundo vídeo não foi interrompido na primeira parte: no reconhecimento da crítica como erro e num pedido de desculpas, que só surgiu na tela, um tanto envergonhado, no caminho do final.

Não fosse a vontade pura de usar o episódio no Ceará numa luta política, o deputado Kim teria atentado, por exemplo, para a entrevista que o governador do Ceará deu à Revista Conjuntura Econômica, edição de dezembro, logo após ser reeleito. O governador falou sobre os resultados altamente positivos que obteve no primeiro período de governo em vários campos, com absoluta vantagem para a educação. E, deixou claro, reconhece que a segurança pública ainda era algo a resolver e que faria isso no segundo período de governo.

A qualidade da imagem depende, cada vez mais, de um comportamento fundamental: a coerência.

Por Jackson Vasconcelos