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Impeachment novamente?

Daqui a pouco não teremos mais interesse algum na escolha de presidentes. Pra quê, né? Já é uma lenha escolher um presidente com todas as limitações que a legislação coloca para o debate e conhecimento da vida dos candidatos. E, depois que escolhemos, vem um bando de gente importante dizer que erramos e que por isso precisa ter impeachment. 

Toda vez que se fala em impeachment, como se faz agora, eu me lembro de duas sessões, pra mim históricas, na Câmara dos Deputados. Elas se contradizem. A sessão que derrubou a Emenda Dante de Oliveira, na tarde/noite do dia 25 de abril de 1984 e a que afastou Fernando Collor de Mello, no dia 29 de setembro de 1992. Eu estive lá nas galerias nos dois momentos. 

O povo brasileiro, cansado da tutela dos militares,  queria votar para presidente e se mobilizou de uma maneira que nunca mais se viu e nunca se tinha visto antes. Para materializar o desejo do povo, o deputado Ulysses Guimarães encontrou na pauta da Câmara dos Deputados uma proposta de emenda à Constituição, de um deputado em primeiro mandato, Dante de Oliveira. A proposta entrou na pauta e mesmo com 298 votos a favor, foi derrotada, por não ter alcançado o quórum mínimo de 320 votos. Os generais de plantão no governo dobraram o Congresso. E, diga-se a bem da verdade que alguns dos 298 votos a favor só aconteceram com a certeza de que a Emenda não passaria. 

Tanto na votação da Emenda Dante de Oliveira – uma sessão que acabou num clima de baixo astral –  como na decisão de afastamento do primeiro presidente eleito diretamente pelo povo, Fernando Collor de Mello, encerrada sob aplausos e palavras de ordem com muita euforia, o Plenário da Câmara dos Deputados e as galerias estavam apinhadas de gente. Muitos dos que choraram por não conseguir aprovar o direito ao voto, sentiram alegria pela oportunidade de cassar o primeiro presidente eleito. 

Depois de recuperado o direito de escolher, por via direta o Presidente da República, uma conquista na Constituinte de 88, o povo brasileiro elegeu cinco presidentes, três deles reeleitos. Dois já foram mandados embora antes do tempo, por impeachment. Ou seja, escolheram-se cinco, sendo que dois o Congresso mandou embora e está com uma vontade danada de mandar o terceiro. “Si hay gobierno, soy contra”, se há presidente, que o afastem. 

Brasil adentro, a moda pegou. São muitos os casos de prefeitos e governadores afastados e depois, definitivamente, cassados pelas assembleias e câmaras municipais. Os parlamentos brasileiros são “Dionísios” na vida de Dâmocles, na relação com o poder executivo. 

A ativista política e jornalista Miriam Leitão, no artigo “Impeachment pelo passado e futuro”, diz que a banalização não é um argumento a se considerar para o caso de impeachment do Presidente Jair Bolsonaro, porque, segundo ela, “a lei é para ser usada”. Acontece, que a lei é de 1950. E quantos casos tivemos de impeachment de presidentes da república no período entre a presidência de Eurico Gaspar Dutra, que deixou o governo em 1951 e Sarney?

Miriam Leitão fala em crime de responsabilidade, porque essa é uma exigência da lei. Mas, a quem compete decidir que houve crime? Certamente, a ela e a todos os que querem o impeachment. Poder-se-ia alegar que sem o uso do impeachment, um presidente meteu uma bala no próprio peito, outro renunciou e outro foi dado como foragido. Mas, isso seria aconselhar o presidente a renunciar ou a fugir, já que outros jornalistas, um da Folha de São Paulo e um do Estadão, tomaram a dianteira no desejo de ver o presidente morto. 

Na verdade, a arte de administrar o Brasil é uma das mais difíceis, porque a pressão dos contrariados está pautada na conclusão de culpa dos presidentes por todos os problemas que povo tem. Afinal de contas, o Estado, para muitos, é o senhor da vida e da morte dos súditos e o Presidente o representa. É assim desde sempre, do Marechal Deodoro da Fonseca ao Jair Bolsonaro. Foi assim, no tempo de D. João e de qualquer um dos D. Pedro. 

Gente, definitivamente, não temos necessidade de tutores. Ninguém precisa nos dizer que tipo de presidente nos é conveniente. Nós sabemos o que queremos e como queremos. E se erramos na escolha, em quatro anos saberemos o que fazer com ela. 

Sabem que nunca acreditou muito nisso? Os ditadores. Por isso, eles nos impuseram presidentes que não queríamos e até governadores e prefeitos que a gente sequer conhecia. Já vivemos tempo de dificuldade para dar posse a presidentes e vices eleitos, porque o Estado, por seus agentes, acreditava que as escolhas que fizemos não eram boas. 

Os escaninhos do Congresso Nacional estão lotados de propostas que aguardam veredito. Lá estão, por exemplo, a PEC do Pacto Federativo, a PEC que regulamenta o teto de gastos, a PEC da Reforma Administrativa, a PEC da Reforma Tributária e um número grande de outras propostas que, depois de deliberadas, seriam capazes de melhorar a vida do povo brasileiro. Coisa bem mais importante para fazer do que o debate cansativo de propostas de impeachment de mais um presidente. A ansiedade por impeachment me faz acreditar que a frustração na votação da Emenda Dante de Oliveira e a alegria na promulgação da Constituição em 88, seriam sentimentos falsos. 

Erraram no impeachment do Collor, como erraram no da Dilma e como pretendem errar agora no caso do Jair Bolsonaro. Todos casos de decisão política de desagravo para quem não queriam esses presidentes. 

*Artigo publicado no Boletim da Liberdade.

Por Jackson Vasconcelos

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Moneyball: O homem que mudou o jogo

O filme “Moneyball”, estrelado por Brad Pitt, é sobre o desafio de um gestor de beisebol, nos Estados Unidos. Nele, alguns aspectos que encontramos na política, como a persistência na estratégia traçada, a liderança e a busca por resultados.

Na nova temporada do podcast “Aqui tudo é política”, Jackson Vasconcelos e Livia Andrade analisam peças como séries, filmes, livros, músicas, sempre pelo ponto de vista da comunicação política.

*Áudio disponível também no canal “Aqui tudo é política” no Spotify.

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Guedes, o “João Bobo”

Guedes versus Bolsonaro é a luta do século. Na plateia, estão os apostadores da esquerda e os liberais. Está sendo uma luta e tanto! No mercado infantil há “João-Bobo” para todos os gostos. A brincadeira consiste em bater no boneco e ele, por mais que seja inclinado ou leve pancadas, voltará a ficar de pé. 

Na semana passada, Guedes tomou outra porretada do presidente, mas continua de pé. Jair Bolsonaro, de público, como gosta de fazer, repreendeu o presidente do Banco do Brasil, porque o cara resolveu presidir o banco. Afinal, entende Bolsonaro que para presidir qualquer coisa no Brasil, só há uma pessoa: ele. 

O que fez o presidente do Banco do Brasil de tamanha gravidade? Resolveu reduzir o quadro de funcionários e agências num mundo de alta tecnologia como, aliás, a empresa fez várias vezes e numa delas, eu aproveitei para sair. Definitivamente, eu não suporto o Estado Brasileiro. Isso, contudo, é uma outra questão. 

Jair Bolsonaro sentiu o cheiro de uma privatização e é alérgico. O mesmo aconteceu no caso CEAGESP, que já comentei aqui. E, acontecerá sempre nas medidas que possam levar à privatização das empresas e corte dos tentáculos do Estado Brasileiro. Empresas que a esquerda diz pertencerem ao povo, para continuarem a usufruir delas sem o povo. Mesmo conceito usado por Jair Bolsonaro. 

A decisão do Presidente da República agradou, imediatamente, ao desejo dos funcionários do Banco (tomara que nem de todos) e os sindicatos, territórios do PT e do PSOL. Agora, se sabe que são, também, dos sem partido, como acontece com o Presidente da República. 

Jair Bolsonaro sofre de “saudades”. Ele incorpora, sempre que pode, o Brasil grandioso dos generais, que nem mais generais são. As decisões do Presidente da República são um aviso para os liberais: “Encontrem outro presidente, se vocês quiserem mesmo um país para o povo e não para as corporações”. Está, portanto, lançado o desafio. 

Já sem muitos argumentos para defender o “mito dos liberais”, seus defensores andam a se socorrer do passado. Tenho ouvido demais a frase: “Você preferia ter Fernando Haddad ou Lula?”. Respondo de pronto: “De jeito nenhum”, mas quem anda pra trás é caranguejo, irmão,  e eu não sou um deles. Posso avançar para além de Jair Bolsonaro. Só preciso de um nome. 

Será, porventura, um candidato dessa tal coalizão que andam a falar por aí? Até pode ser, mas que não seja um dos nomes que na coalizão já estão. Maia, Fernando Henrique Cardoso, Serra, Luciano Huck e outros tais são iguaizinhos a Bolsonaro quando o tema é a sobrevivência das corporações e do tamanho do Estado. Quero alguém que compreenda que o Brasil precisa sair das amarras do Estado ineficiente, arrogante e caro, para seguir em frente. 

Eu ainda não sei se fiz o certo, mas filiei-me ao Partido Novo, porque me aproximei dele na campanha do Fred Luz para a Prefeitura do Rio e senti o perfume dos liberais. Se eu estiver errado, o meu coração já está acostumado aos erros de avaliação. Paciência! O PFL, aquele partido que morreu em nome do projeto político dos Maias e Kassabs, tinha me parecido um bom caminho. Deixou de ser e mudou de nome e para enganar os menos avisados. Agora são Democratas e Partido Social Democrático (PSD). 

É hora de os liberais buscarem  nomes e isso é urgente. Com a licença de vocês, dou um corte, conveniente para as minhas alegações, num parágrafo longo do livro  “A rebelião das massas, de Ortega e Gasset:

O característico do momento é que a alma vulgar, sabendo-se vulgar, tem a audácia de afirmar o direito à vulgaridade e o impõe em toda parte. A massa sufoca tudo que é diferente, magnânimo, individual, qualificado e seleto. Quem não for como todo o mundo, quem não pensar como todo o mundo, corre o risco de ser eliminado. E está claro que esse “todo o mundo” não é “todo o mundo”. “Todo o mundo” era, normalmente, uma unidade complexa de massa e minorias discrepantes, especiais. Agora, “todo o mundo” é tão somente a massa. 

Para situar, o livro é de 1930. E para que a gente não se deprima, estamos numa democracia onde o voto pode valer mais se os nomes certos chegarem à disputa. 

*Artigo publicado no Boletim da Liberdade.

Por Jackson Vasconcelos

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Borgen

O que Birgitte Nyborg tem a nos ensinar sobre comunicação política? Uma análise da série Borgen, disponível na Netflix.

Na nova temporada do podcast “Aqui tudo é política”, Jackson Vasconcelos e Livia Andrade analisam peças como séries, filmes, livros, músicas, sempre pelo ponto de vista da comunicação política.

*Áudio disponível também no canal “Aqui tudo é política” no Spotify.

 

 

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Viva a liberdade!

Eu gostei do que houve em Washington. Não gostei do que fez o imperador Zuckerberg. Em Washington, o povo americano mostrou o quanto evoluiu a relação da polícia com a população. Zuckerberg reafirmou que não tem essa de liberdade de expressão nas redes dele, que nós, muitas vezes, julgamos serem nossas – meu facebook, meus faceamigos, meu Twitter ou meu Instagram. Tudo isso pertence a uma só pessoa, ao senhor Mark Elliot Zuckerberg. Ele é o dono, decide com quem você fala o que fala. 

Você, certamente, viu as cenas da invasão do Capitólio e ouviu os repórteres e comentaristas sobre a ocorrência. Para completar o conjunto, há a matéria de Ernesto Neves na VEJA da semana, que mereceu capa e um box de memória assinado por Monica Weinberg. No box está a entrevista do Presidente Trump às Amarelas em 2014. A chamada tem tudo a ver com a gente: “Brasileiros, me aguardem”. Nós aguardamos e ele aqui chegou em 2018. Se estamos a gostar disso ou não, cada um tem liberdade para sentir e dizer. 

O trabalho do Ernesto Neves tem uma passagem – um trecho curto – que dá  a dimensão do conhecimento que ele tem da História. Está escrito: “Foi como se – numa comparação exagerada, mas didática e necessária – Roma fosse tomada pelos bárbaros. Numa palavra: vergonhoso”.  A comparação não é exagerada, menos ainda didática, ela é equivocada, porque bárbaros eram povos não romanos e vergonhoso era o comportamento dos imperadores. Nos tumultos em Washington, os americanos fizeram todo barulho. Enfim, é a imprensa que temos. 

Adiante! Sugiro que você, minha cara leitora, meu caro leitor, com os olhos nisso tudo assista – se você ainda não assistiu – “The Trial of the Chicago 7” – no Brasil, “Os 7 de Chicago”, disponível no NETFLIX. Assista, mesmo que você conheça plenamente o caso ou tenha lido Battleground Chicago. O filme é a reprodução no cinema do julgamento de um grupo de jovens ativistas, que foi ao Lincoln Park em Chicago para protestar contra a Guerra do Vietnã. Escolheram Chicago pela visibilidade que a Convenção Nacional dos Democratas daria ao evento – “o mundo todo está nos vendo”. Afinal, o Democrata Lyndon B. Johnson estava na Presidência dos EUA e tinha autorizado a ida de mais 500 mil soldados americanos para a guerra. 

O mundo ferveu em 68 e nos EUA o calor se fez maior, com o assassinato de Martin Luther King e Robert Kennedy. 

O filme, tanto para quem sabe a história real como para quem não sabe, é um bom exercício para se conhecer o comportamento da polícia em 1968 e agora. Por todos os motivos de pressão popular, a polícia nos EUA me pareceu um tanto melhor. E, se melhorou de fato, isso se deve a uma questão fundamental: o povo reage sempre às violências da polícia, seja contra negros, seja contra brancos. Um povo que não reage a elas e as aceita como inevitáveis, um dia será a vítima. 

Outro ponto relevante: as cenas do julgamento dos jovens ativistas, um deles negro, agridem quem tem a exata noção do que é a liberdade de expressão e nesse ponto, entro com o mago Zuckerberg. 

No julgamento dos sete de Chicago, que foram durante um tempo, oito, o Juiz Julius Hoffmann manda amordaçar e amarrar na cadeira o réu negro, Bobby Seale, para impedir que ele continuasse a pedir a presença de um advogado ou a ter o direito a fazer a própria defesa. O juiz negou-lhe o advogado e a defesa pessoal e também negou ao júri o depoimento essencial de uma testemunha apresentada pela defesa. 

Quando o Facebook, o Twitter, o Instagram e etc amordaçam quem os contraria, nos dão uma notícia: os espaços que usamos têm dono e não somos nós, assim como acontece e sempre aconteceu com a imprensa tradicional. O acesso é selecionado pela opinião. Por isso, às vezes o povo prefere ir gritar nas ruas, não importa quem seja o déspota. O  ser humano nasceu para a liberdade. Imaginem o que acontecerá ao senhor Zuckerberg se os usuários dos espaços dele resolverem buscar outro caminho. Será a aplicação melhor de uma regra básica do mercado: é dono quem paga pela propriedade. 

*Artigo publicado no Boletim da Liberdade.

Por Jackson Vasconcelos

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Debater pra quê?

Quantos bairros há na cidade do Rio de Janeiro? Quantas ruas e avenidas? Se tornamos por base o debate entre Eduardo Paes e Marcelo Crivella durante a semana na Band, concluiremos que, seja qual for o número, Cesário de Mello é a mais importante avenida da cidade, porque com ela, Eduardo Paes abriu o confronto direto com Crivella. Nenhuma outra avenida ou rua da cidade mereceu tamanha honra. 

Sem a ironia, o que sobra do fato? 

A consideração sobre a estratégia adotada pelos dois candidatos no debate e na campanha: aniquilar o adversário, para vencer a eleição por exclusão. Eles escolheram a única estratégia possível, porque para serem marcadas por propostas, ideias ou até mesmo pela retórica de princípios e valores, as campanhas dos dois candidatos precisam ter, neste campo, diferenças, pelo menos, algumas. Não têm! 

Crivella e Eduardo ou Eduardo e Crivella, tanto faz. Eles são representantes de uma mesma maneira de fazer política e governo. Os dois acreditam que a prefeitura tem recursos infindáveis e não importa serem desperdiçados com projetos políticos individuais e favores aos aliados. Nem Eduardo governou para o cidadão carioca, nem Crivella para a igreja dele como o acusa o adversário. Os dois governaram todo o tempo para os aliados políticos. 

Insisto que o ponto fundamental em qualquer debate político no Brasil, no momento, deveria ser a cidadania e a relação dela com o Estado Brasileiro, em suas diversas representações, entre elas, as prefeituras. Mas, essa discussão passa longe do debate político nas campanhas. Elas cumprem uma estratégia de comunicação traçada com base em pesquisas bem simples onde o eleitor é chamado para responder às questões tiradas da cabeça dos pesquisadores. As deste ano inseriram o termo “gestor”, porque, afinal de contas, a cidade está uma bagunça. “O povo quer um gestor”, dizem os leitores de pesquisas. 

Vá lá que seja mesmo isso, mas um gestor para gerenciar o quê e de que forma? Do que precisa o cidadão carioca? De que recursos dispõe a prefeitura para atendê-lo? São recursos suficientes? Isso pouco importa, porque as pesquisas indicam que não é bom um candidato falar em aumentar impostos, cortar despesas ou mesmo colocar a turma de servidores para trabalhar pra valer e atender o cidadão. Então, fiquemos com a proposta de aniquilar o adversário, porque no mais, diferença não há. 

Sobre política, debates e ideologias, sugiro a vocês a série Borgen, que a NETFLIX está exibindo. Borgen é a redução do nome do local onde, na Dinamarca, estão situados os três poderes da monarquia. É uma ficção sobre a política dinamarquesa. 

No primeiro episódio, há a cena de um debate eleitoral entre vários candidatos, entre eles, Birgitte Nyborg, personagem principal. Ela foi preparada para o debate por seu assessor de imprensa e instruída, por ele, de como deveria se vestir. Os dois minutos dados a ela para falar criam, na equipe, tensão, medo e, no fim, euforia. Birgitte abandonou o texto combinado e deu o motivo de não estar com o traje sugerido pelo assessor: “o que acontece é que o blazer não coube porque engordei um pouco”. 

O discurso é brilhante…

“Todos aqui somos muito profissionais. Vemos as perguntas antes do debate, formuladas pela mídia. Todos seguimos os roteiros para sermos perfeitos. Agora mesmo, o meu assessor está nos bastidores me xingando, por não seguir o discurso. E ficou bravo por eu não usar a roupa que combinamos..”. E ela segue, até chegar ao final, para dizer: 

“Se quisermos uma nova Dinamarca criada por nós, temos que inventar uma nova forma de nos comunicarmos com o povo e encontrar uma nova forma de fazer política. É possível que palavras como socialismo, liberalismo e solidariedade (partidos presentes ao debate) sejam palavras que descrevam o mundo de ontem, não de amanhã. Um mundo moderno e variado como nossa democracia deve ser”. 

Quem puder não perca. Quem já assistiu, certamente, tem simpatia pela política e gostou. Sobre a estratégia de aniquilar um adversário há também exemplos, que a cultura diferente da nossa deu destino melhor. 

*Artigo publicado no Boletim da Liberdade.

Por Jackson Vasconcelos

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Um balanço da eleição

O establishment sobreviveu para dar, mais uma vez, vitórias à ineficiência e à preguiça, vícios do Estado Brasileiro.  Os socialistas venceram novamente. Às 17h, antes ainda do resultado final da eleição municipal, que demorou como há muito tempo não demorava, a convite do Ronaldo Gomlevsky, participei de uma roda de conversa na internet com um grupo excelente de comentaristas. 

Nossa conversa se fez, inicialmente, com base na pesquisa  na boca da urna e prosseguiu quando surgiram os primeiros resultados oficiais. Alguém levantou uma questão sobre a derrota da esquerda no Rio de Janeiro, com Benedita da Silva e Martha Rocha. Ousei discordar, para mostrar que, desde 1982, no Rio de Janeiro, em especial na Capital, os socialistas estão poder, e pertencentes à mesma raiz: Leonel de Moura Brizola. De Jamil Haddad a Eduardo Paes, por afinidade ideológica e história. Marcelo Crivella, por costume.  

Os socialistas são o Estado ineficiente e preguiçoso, por isso, caro e opulento. É um distribuidor de favores e benefícios, agente da caridade com o chapéu alheio no lugar de garantidor dos direitos do cidadão. 

Ainda não foi dessa vez. O “establishment” é socialista e está sólido e sabe como sobreviver. Uma das frentes é a legislação eleitoral. Ela inibe as campanhas e não faz isso por mero acaso ou estupidez. Nada disso! É estratégia de sobrevivência. Sem campanhas ou com campanhas financiadas com o dinheiro público e direção determinada pelos partidos que pertencem ao “establishment”, vencê-lo será uma pedreira! Não será de uma vez só, nem no tranco. O processo exigirá paciência e estratégia. Uma paciência que João Amoedo parece ter perdido, quando responde sobre o desempenho do partido Novo, que é caminho criado por ele para vencer o “establishment”. 

Mas, se a mudança não acontecer por bem, haverá por mal, quando chegar o dia em que o Rio de Janeiro estará completamente vencido pelo crime e desastre econômico. Para quem gosta de ter esperança, percebo esse tempo bem próximo.  

Já fiz menção aqui neste espaço a uma das melhores obras políticas escritas em estilo de romance, a Revolta de Atlas. A autora, Ayn Rand, nasceu na Rússia e sofreu as consequências da Revolução de lá, quando o Estado quebrou o negócio do pai e levou toda a família à miséria. O livro é uma aula de Brasil. Acreditem. Nele está o elemento motivador da decisão do prefeito Marcelo Crivella com relação à Linha Amarela e exemplos também de empresários que enriquecem rápido, só pela influência que têm nos governos, como se viu ocorrer no tempo dito de ouro, das grandes obras e eventos internacionais. 

O tempo dirá a até quando irá a paciência de que empreende e só precisa do Estado para obter o que ele não oferece: segurança pessoal e jurídica.

*Artigo publicado no Boletim da Liberdade.

Por Jackson Vasconcelos

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Vendam as minhas empresas e vendam logo!

O IBGE diz que somos 209, quase 210 milhões de pessoas no Brasil e é o caso de se perguntar: quantos de nós recebe alguma coisa, qualquer coisa, das empresas que a esquerda e os bobos da corte consideram nossas? Poucos de nós. Uma minoria de privilegiados funcionários, fornecedores, seus familiares e apadrinhados. 

Então, eu, parte da maioria, digo a você, minha leitora, meu leitor, que gostaria mesmo que o governo se desfizesse de todas as empresas e negócios que dizem serem minhas ou meus. O dinheiro da venda, qualquer dinheiro, desejo que os vendedores destinem aos orçamentos públicos, para aliviarem o peso que o governo faz sobre os meus ombros. 

A isso chama-se privatização, nome feio para a esquerda, onde está alocada a minoria que se beneficia de todo o trambolho registrado em nome do Estado. 

Vez por outra os governos prometem a tal privatização. Alguns avançam um pouco e param e outros nem isso, porque  a minoria beneficiada é barulhenta, esperneia e mente, mente muito para criar insegurança e incerteza na maioria. A minoria criou a conversa fiada de “empresas estratégicas”, “patrimônio público inviolável” e outras bobagens mais. 

Se quer tanto as empresas e negócios que só a ela, minoria, beneficia, então que fique com tudo, mas pare de nos cobrar a conta. 

Lima Barreto, o brasileiro, mulato, inconformado, escreveu crônicas magníficas. Uma delas, “Centenário”, escrita para comentar a comemoração dos 100 anos do Grito da Independência. Nela, o magnífico cronista cita o conto de um humorista inglês sobre um mendigo de Londres, que disse: “Sou súdito de Sua Majestade Britânica. Tenho, além das Ilhas Britânicas, o Canadá, a Austrália, a Índia, a Nova Zelândia e não sei que mais terras; entretanto, visto-me com farrapos, durmo, as mais das vezes, ao relento, e passo dias sem comer. Que me vale ter nominalmente tantas terras? Nada. Antes tivesse alguns níqueis por dia”. E Lima Barreto surfa na onda do mendigo: “Creio que o carioca raciocina de alguma forma parecida. Dirá ele: “Que me adianta José Bonifácio, Pedro I, Álvares Cabral, o Amazonas, o ouro de Minas, a feérica exposição, o Minas Gerais, se levo a vida a contar vinténs, para poder viver?”.

Tenho voltado às leituras da juventude. Dizem que é assim com os mais velhos, porque o lembrar das coisas antigas deve ser o anúncio da partida. 

Minha professora de Língua Pátria, no curso primário, dona Lúcia Maria Furquim Leite Silveira, é a razão de meu gosto pela leitura. Ela dividia as aulas em dois tempos. No primeiro, gramática e no segundo, leitura em voz alta de textos escolhidos por ela e pelos alunos. 

Enquanto a gente lia, a professora consertava o ritmo da leitura, com vírgulas, pontos, exclamação, interrogação e etc. “As pausas”, dizia ela, “Não são iguais para todos os textos e vocês compreenderão isso quando colocarem a alma naquilo que leem”.  

Os Contos de Lima Barreto eram os meus favoritos. Hoje, são bem mais, pela atualidade do que escreveram, uma prova de que a agenda política do Brasil é imutável. Por aqui, parece que o tempo não avança. 

*Artigo do Boletim da Liberdade.

Por Jackson Vasconcelos

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Ainda há um galo!

Meu pai nasceu numa cidade de Pernambuco que eu só conheci aos 14 anos de idade: Gravatá. Lá, um irmão dele, Luiz, segundo nome que carrego, me contou a história de um homem morador num sítio, para ilustrar a vida de um vagabundo aproveitador. 

Disse ele que o homem e a família receberam a visita de um parente de segundo grau, que ficaria alguns dias. O cara chegou e foi ficando, ficando, ficando. O sujeito comia muito. 

Para se livrar da visita, o dono da casa resolveu dizer que a comida estava acabando e ele não tinha como fazer compras. Logo, logo, o visitante começou a anunciar a saída, mas foi ficando. Até que numa noite, na hora do jantar, nada se serviu. O cara, então, agradeceu muito a atenção, arrumou as malas e prometeu que no dia seguinte sairia bem cedo. 

O sol raiou. O galo cantou e o sujeito chegou à cozinha. “Que galo é esse?”. É nosso, respondeu o anfitrião. “Então, é possível que tenhamos almoço, não?” E ficou mais um dia. 

Quando olho as campanhas eleitorais pelo Brasil afora e vejo que os liberais não encontram espaço para o discurso e vitórias, me lembro da história contada pelo meu pai, para concluir que o Estado Brasileiro ainda tem um galo para assar. 

O povo, por ignorância ou falta de juízo, insiste em aplaudir aqueles que lhe oferece favores financiados por ele próprio, o povo, com os impostos que paga. 

As promessas não apresentam custos. Tudo é possível, do dar a comida a fornecer a creche e obras. Mas, quem pagará a conta? Sabe-se que o Estado Brasileiro já dá sinais de falências dos órgãos, mas os malditos políticos não liberais continuam a prometer e, pior, a tentar fazer o que lhes dá na cabeça com o dinheiro do povo.

A cidade do Rio de Janeiro quebrou, quando arrancaram dos contribuintes o dinheiro para fazer as Olimpíadas, enquanto os hospitais, as escolas, a segurança pública e todo o resto das obrigações da prefeitura ficaram para trás. 

Durante a semana, eu assisti a um debate entre alguns candidatos à prefeitura do Rio. O tema foi “favela sustentável”, onde se falou sobre energia solar, cuidados com o lixo e outras sandices mais, para lugares onde a prefeitura não entra sem autorização do crime. Esse é o grande problema das políticas públicas no Brasil: imagina-se que há governo grátis. Não há. E como o governo não é grátis, nem barato, que tal se ele fosse menor? 

Quem sabe quando não existir mais um galo para colocar na panela, os eleitores escolham os liberais? 

*Artigo publicado no Boletim da Liberdade.

Por Jackson Vasconcelos

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O liberal

Você, eleitor no Rio de Janeiro, tem algum interesse, mesmo que pequeno, assim, pequenino, no que acontecerá nas eleições em Anápolis ou Santo Ângelo? Será que os eleitores de lá estarão preocupados com o Rio de Janeiro, onde réus disputam a prefeitura tendo vices que ninguém sabe exatamente quem são?  Onde Igreja e Estado se misturam para tomar o dinheiro do povo crédulo e não crédulo? 

Se você é eleitor em São Paulo, a eleição em Maringá, onde o prefeito Ulisses Maia lidera com mais de 40% das intenções de votos, interessa a você? 

Pois é, cara leitora, caro leitor, esteja você onde estiver, as contas dos candidatos de todos esses lugares e de outras mais de 5.500 cidades é você quem paga, porque o Congresso Nacional formado, na grande maioria, por candidatos profissionais e quase todos representando o pensamento não liberal, decidiu assim. Estou a falar do Fundo Eleitoral, que tem um título mais adequado de Fundo de Financiamento de Campanhas. 

Para este ano está previsto o valor de R$ 2 bilhões no Orçamento da União, onde também ficam as rubricas da saúde, educação, saneamento básico, segurança e outros gastos, estes sim do interesse de quem paga a conta. 

É ou não é para ficar com raiva da política? Entretanto, a culpa não é dela, mas dos que acreditam que o Estado é obrigado a bancar todas as atividades humanas sem se preocupar com o custo e o retorno. Quando alguém decidiu que é bom produtor de teatro e, na verdade, não é, o contribuinte paga a conta. Quando alguém acredita que a velhice acontece aos 60 anos e é um mérito merecedor de prêmios, o contribuinte paga-lhe as despesas. E isso só acontece na cabeça torta dos não liberais, que desconhecem o óbvio: o Estado produz o dinheiro, mas não cria riqueza e quando ele atrapalha quem cria, o dinheiro que produz perde valor no bolso de quem paga os impostos. Simples, não? Na compreensão dos liberais, sim, mas na mente confusa e, por vezes esperta dos não liberais, nunca. 

Fico mais irritado com a razão da existência desse Fundo de Financiamento das Campanhas. Na raiz está o mal comportamento dos candidatos, que fizeram o diabo com as doações das empresas para as campanhas e as empresas que se aproveitaram disso. Nesse ambiente houve de tudo, do tráfico de influência à cara de pau, até que a bomba estourou. 

Em vista disso, o legislador, ao mesmo tempo candidato, resolveu fugir do risco de ser incomodado e facilitou as coisas para si mesmo. O contribuinte, que antes pagava a conta via obras a preços absurdos  e serviços públicos de péssima qualidade, passou a pagar diretamente. Os gênios não liberais encurtaram o caminho. Criaram uma lei que tira do contribuinte, direto, na veia, o dinheiro para as campanhas.  

Outro dia, numa conversa por zoom, um colega me questionou: 

  • Você e eu somos profissionais de campanha e recebemos em pagamento o dinheiro do fundo eleitoral. Então, para com essa hipocrisia, substitua-a pelo conceito da devolução: o Estado está devolvendo a você uma parte do que você pagou. 
  • Verdade! Agora fiquei mais “P” ainda. 
  • Por quê? 
  • Quer coisa pior, amigo? Você saber que está sendo pago pelos seus serviços com o seu próprio dinheiro, que serve para pagar os concorrentes também. 

Insisto: só há uma saída e é repensar o Estado Brasileiro, para tirá-lo da lógica dos não liberais, uma idiotice que faz parecer o dinheiro do contribuinte inesgotável. Leiam a Revolta de Atlas. Vale a pena. A escritora, Ayn Rand faz, em forma de romance, a trajetória mais indicada para quem paga, paga, paga e é incomodado só para poder pagar, pagar, pagar, cada vez mais impostos ao Estado opulento, chato e irresponsável. 

*Artigo publicado no Boletim da Liberdade.

Por Jackson Vasconcelos