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O Sermão do Bom Ladrão

Fico mais atento às relações dos agentes do Estado Brasileiro com a sociedade  no tempo das eleições, porque elas representam a chance de haver mudança numa relação que é, ainda hoje, de vassalagem.  

Vejo nisso ocasião para trazer à memória um dos sermões do Padre Vieira, o Sermão do Bom Ladrão, aqui colocado como lição e nunca como provocação. 

Acredito que todos já conheçam o Padre Vieira, mas quero apresentá-lo com a beleza da cena de abertura do filme Palavra e Utopia, de Manoel de Oliveira, onde Lima Duarte dá aos Sermões a mesma eloquência que, certamente, lhes deu o Padre. 

A cena de apresentação de Vieira está num julgamento. O juiz determina ao réu: “Levante-se e diga quem é”.  O réu obedece e diz:  “Sou Padre Antônio Vieira, religioso professor da Companhia de Jesus, teólogo, pregador régio e assistente do colégio desta cidade.  Nascido em Lisboa em 6 de fevereiro de 1608, filho de Cristóvão Vieira Ravasco e Maria Azevedo, ainda vivos na Bahia, com meu irmão, Gonçalves Ravasco de Albuquerque e família, para onde fomos em 1614, e onde fui educado no Colégio dos Jesuítas, entrei no noviciado e me ordenei”. 

Fico por aqui na narrativa do filme, que vale a pena assistir por completo. Ele está disponível no Youtube. Apresentado o autor, vamos ao Sermão, antes, porém, dizendo o motivo de usá-lo como lição aos eleitores na campanha que está à porta. 

Tenho visto por aí candidatos esforçando-se para voltar ou permanecer no poder. Ato legítimo. 

Entretanto,  alguns já nos causaram prejuízos e, em alguns casos, a morte de pessoas. Para fugirem à responsabilidade por esses atos, os candidatos apontam o dedo para os auxiliares, que eles mesmos escolheram. Mas, seria somente dos auxiliares a responsabilidade? Afinal, quem nomeou tais pessoas e quem deixou de observá-las de perto como deveria? Por certo, não fomos nós contribuintes. Mas, seremos, contudo, chamados, no final da linha, a pagar a conta, situação resultante da relação desigual que há entre os agentes públicos e o povo. 

O voto é ato de confiança, que se estende à liberdade que têm os eleitos para escolher com quem trabalham e para cuidar do dinheiro, que entregamos ao Estado para que ele cumpra as funções em razão das quais existe. 

Quem não foi digno da confiança uma vez, por certo, não será novamente. Cheguei, então, ao elo que liga o presente assunto ao Sermão do Padre Vieira. Nele está relatado, entre muitos exemplos de ladrões pobres e ladrões ricos, o perdão de Cristo a Zaqueu, um agente público, coletor de impostos. 

Diz o Padre Vieira: “Entrou, pois o Salvador em casa de Zaqueu, e aqui parece que cabia bem o dizer-lhe, que então entrara a salvação em sua casa; mas nem isto nem outra palavra disse o Senhor…”. 

Continua o Padre Vieira, dizendo ao Cristo: “E este homem na vossa pessoa vos está servindo com tantos obséquios, e na dos pobres com tantos empenhos, (…), e a sua salvação é a importância que vos trouxe à sua casa, se o chamastes, e acudiu com tanta diligência, se lhe dissestes que se apressasse e ele se não deteve um momento, por que dilatais tanto a mesma graça que lhe desejais fazer? Por que não acabais de o absolver, por que não lhe assegura a salvação?” 

A resposta indica um caminho para o perdão e salvação: 

“Porque este mesmo Zaqueu, como cabeça de publicanos roubou a muitos, e rico como era, tinha com que restituir o que roubara. Enquanto estava devedor e não restituiu o alheio, por mais boas obras que fizesse, nem o mesmo Cristo o podia absolver(…). Eram todas obras muito louváveis; mas, enquanto não chegava a fazer a da restituição, Zaqueu não merecia a salvação. Restitua, e logo será salvo. E no mesmo ponto que o Senhor, que até ali tinha calado, desfechou os tesouros de sua graça e lhe anunciou a salvação. De sorte que, ainda que entrou o Salvador em casa de Zaqueu, a salvação ficou de fora, porque, enquanto não saiu da mesma casa a restituição, não podia entrar nela a salvação. A salvação não pode entrar sem se perdoar o pecado, e o pecado não se pode perdoar sem restituir o roubado”. 

Está dito. Sirvamos-nos, portanto, do exemplo para ter uma boa prática na relação dos agentes públicos com a cidadania. Se alguém deseja ter, novamente, o voto do cidadão, e no passado, por negligência ou ação direta, permitiu que ele fosse roubado ou mutilado, arranje um jeito de o ressarcir do prejuízo. Caso contrário, o pedido de voto será, com justo motivo, considerado um ato de cinismo e a confirmação da confiança uma atitude estúpida que aplaudirá a irresponsabilidade.

*Artigo publicado no Boletim da Liberdade.

Por Jackson Vasconcelos

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Uma Casa mal assombrada

No Estado do Rio de Janeiro, desde 1974, ano em que, no tranco, foi extinto o Estado da Guanabara, não houve um governador que tivesse vida longa na política e o destino dos últimos tem sido muito infeliz.  

Floriano Faria Lima foi o primeiro. Não chegou lá pela política, mas quando de lá saiu não se soube mais dele, até 2011, quando, por mero dever protocolar, a imprensa noticiou que ele, aos 94 anos, faleceu. 

Após Faria Lima, houve Chagas Freitas, que, “No intervalo que separa a morte política dele da morte física, fora despido de todos os símbolos de poder: seu império jornalístico fora vendido e seu grupo político muitas vezes negou identificação com o líder. Socializado politicamente nas fileiras do chaguismo, Miro Teixeira emergiu da redação de O Dia para assumir o posto de herdeiro político de Chagas Freitas. Mas, na campanha eleitoral de 1982, por perceber a dificuldade de se contrapor aos críticos de seu mentor político, afastou-se dele e foi derrotado”. As citações são do livro “A Política Carioca em Quatro Tempos”, que reúne textos de Carlos Eduardo Sarmento, Marly Motta e Américo Freire. Uma obra que deveria compor a leitura de quem queira entender como é a complicada política carioca. 

Mesmo com tais destinos, sorte melhor tiveram Floriano Faria Lima e Chagas Freitas do que seus sucessores. Quando dirigiu o Informe O Dia, o jornalista Jan Theophilo, numa nota, alertou o povo do Rio de Janeiro: “Ao que parece lá vamos nós de novo”, dizia ele no início do primeiro governo Cabral, para completar: 

“Todo governador do Rio começa o mandato sonhando com a Presidência da República e termina tentando não sair preso do Palácio”. Cabral mandou-lhe um duro recado. 

Por que será esse o destino dessa gente? O povo não sabe escolher? Será que a estratégia deles para permanência no poder é equivocada? Será uma sina? 

O casal Ariel e Will Durant, autores da mais completa coleção sobre a História da Civilização, abre o capítulo XXII do volume “Começa a Idade da Razão”, afirmando: “As religiões nascem e podem morrer, mas a superstição é imortal”. O caso do Rio de Janeiro será uma maldição do Palácio Laranjeiras, uma casa que parece mal assombrada? 

Quando o governador Wilson Witzel entrou na ciranda, lembrei-me de uma das propagandas criadas pela Artplan, para a campanha do candidato Moreira Franco em 1982, e fiquei matutando: “Caramba! Os irmãos Medina já sabiam que o Palácio Laranjeiras era mal assombrado. Deveriam ter-nos avisado!”. 

Criada para a propaganda eleitoral na TV, a peça mostrou o Palácio Laranjeiras com todo jeitão de uma casa mal assombrada, ocupada, há anos, pelo fóssil de um governador ultrapassado, o senhor Chagas Freitas. Uma voz grave leu um texto bem formulado, talvez pelo brilhante Evandro Barreto, que prometia exorcizar o Palácio com o “exorcista” Moreira Franco. 

Contudo, Brizola venceu a eleição. Mas, Moreira Franco lá chegou quatro anos depois e o futuro dele na política após deixar o governo, evidenciou que, ao invés de exorcizar o Palácio, o governador se deixou incorporar pelos maus espíritos. 

Como não sou supersticioso, estou certo de que os destinos ruins dos governadores têm outro motivo. Está no modo como eles entendem a função. Assim que eleitos, eles se acham absolutos, seres especiais ungidos pelos deuses para tratarem os assuntos do estado como bem queiram. E como o estado é enorme e poderoso, eles, do mesmo modo como fez Napoleão, a si mesmos coroam, imperadores. Mas, como não vivemos num Império, eles têm acabado mal cada vez mais cedo. 

Todos teriam melhor destino se o Estado fosse menor, menos poderoso e arrogante, do jeito como pedem os liberais. Com menos espaço para fazer arte, os governadores arteiros poderiam ter dito melhor destino. 

*Artigo publicado no Boletim da Liberdade.

Por Jackson Vasconcelos

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Vencer eleição pra quê?

Estamos no mês de setembro, a caminho de outubro, décimo mês após a posse dos governadores e do presidente da República. Há pela frente três anos e três meses de mandato. Era de se esperar, pelo tamanho das dificuldades de fazer a máquina pública funcionar no Brasil e magnitude dos problemas nacionais, que o presidente e os governadores estivessem ocupados até o último fio do cabelo com as tarefas que prometeram cumprir. Não é o caso. Eles estão em campanha novamente.

Os governadores do Rio e de São Paulo, por exemplo, querem a presidência e o presidente pretende continuar lá por mais quatro anos. Ele não pretendia, mas quando lá chegou, gostou do lugar e quer ficar. Tomara que só por mais quatro anos.

Os três, então, entraram em rota de colisão. No meio disso, há as campanhas para as prefeituras e câmaras municipais numa eleição que acontecerá em outubro do próximo ano. O presidente terá seus candidatos e os governadores também.

Evidentemente, em razão da disputa pela presidência das República, os candidatos do presidente às prefeituras não serão a preferência dos governadores de São Paulo e Rio. Eis aí outro campo de cisão. No Rio de Janeiro, o partido do presidente rompeu com o governador que o presidente elegeu, porque o cara resolveu ser presidente no lugar do chefe e os dois não podem partir juntos na eleição municipal.

Os movimentos não param aí, porque há senadores e deputados federais e estaduais apresentando-se como candidatos a prefeito. Eles assumiram os mandatos nos parlamentos há apenas oito meses.

Onde fica o povo nisso tudo?

Uma parte dele até gosta. Quem está na imprensa, por exemplo, porque tem assunto sem muito trabalho. Quem está na política e vive dela, também, porque as campanhas empolgam mais e cobram menos serviço do que as políticas públicas.

No entanto, se juntarmos toda essa gente, que está feliz com o processo, teremos uma gota no oceano da população brasileira que, por costume, depende em quase tudo do Estado Brasileiro e espera por providências que lhe dificultem menos a vida.

Temos aí, claramente, um desencontro de interesses. E isso penaliza a sociedade brasileira com uma qualidade ruim dos serviços públicos e uma agenda sempre repetida e sem solução na saúde, na educação, na segurança pública, na autonomia para empreender, na ordem pública.

Como se poderá resolver isso? Porventura, acabando-se com as eleições, para não se ter mais campanhas? Tirando a democracia do caminho, como deseja Carlos Bolsonaro, com o argumento que com ela as soluções se tornam mais difíceis?

Nunca, porque aqui e em outros lugares do mundo já se tentou esse caminho e o final da história não valeu a pena.

A solução está onde está o problema. O povo deve decidir o destino do voto com base nos resultados efetivos dos serviços oferecidos pelos governos e do trabalho feito pelos representantes que escolheu. E, cá entre nós, começou a ser assim, só que muitos políticos, candidatos profissionais, ainda não perceberam e dão para os resultados das últimas eleições todo tipo de argumento. Dizem, por exemplo, que os chutes nos traseiros foram uma onda renovadora provocada pelas mídias sociais. Então, correm para elas. Os que se elegeram pensam do mesmo modo e, como estavam nas mídias sociais, reforçam o time e o jogo pesado.

Podem acreditar que a resposta correta é: apesar de sermos uma democracia muito jovem, nossa gente já aprendeu que com um clique na tela de um computador específico, a urna eletrônica, ele pode demitir quem não correspondeu. O povo brasileiro aprendeu que vale a pena arriscar em algo que ele não conhece, quando o que ele conhece não lhe serve mais.

Quem, nesse momento, estiver pensando em campanhas, que pense direito, para não se frustrar e andar por aí à busca de argumentos que não sustentam a tese.

*Artigo publicado no Boletim da Liberdade.

Por Jackson Vasconcelos