“Você é feio”. “Feio é você!” E o futebol carioca?

Ferj

“A decisão de empreender a guerra deveria ser racional, no sentido de ser baseada numa avaliação de custos e lucros da guerra. A guerra deveria ser instrumental, isto é, empreendida com vistas a alcançar-se algum objetivo, e nunca por si própria; é no mesmo sentido que tanto a estratégia como as táticas devem ser dirigidas para um só fim, vitória. A guerra é um ato planejado com o objetivo de forçar o adversário a executar o nosso desejo” (Da Guerra, clássico de Carl Von Clausewitz).

O empate no sábado, 21/03, contra o Tigres foi a gota d’água no pote cheio dos torcedores do Fluminense com o técnico do time e também derreteu um pouco mais a imagem do clube, já deteriorada pelo esparadrapo que desonra a “armadura tricolor” e está colocado ali pelo complexo de vira-latas de quem deveria cobrar e não cobra da ADIDAS uma atitude de mais respeito.

Os problemas enfrentados pelo Fluminense no Campeonato Estadual eram esperados, porque o presidente da Federação de Futebol do Rio de Janeiro (Ferj), senhor Rubens Lopes, nunca morreu de amores pelo presidente do clube e é da sua natureza tratar situações de animosidade pessoal com a força da organização que preside. Quem o conhece sabia que ele, na primeira oportunidade, jogaria todo o peso de sua função sobre o presidente do Fluminense. Faria o mesmo, pelos mesmos motivos, contra o Flamengo. E a oportunidade surgiu com o retorno do Eurico Miranda à presidência do Vasco e, agora, com a realização do Campeonato. Na correnteza da confusão, terminou entrando o Maracanã.

Bobearam os adversários do presidente da Ferj. Faltou-lhes a mais elementar lição de estratégia: agir para capturar as oportunidades e para anular as ameaças. Não agiram no tempo devido e reagem agora, sem avaliarem os custos e os lucros da guerra que empreendem.

No Carioca de 2013, o jornal O Globo publicou uma matéria assinada pelo repórter Gian Amato sobre o resultado financeiro do campeonato para os clubes e Federação. Ela venceu por 7×1. Procurado pelo repórter, eu me pronunciei e ele publicou uma parte do que seu disse: “A Federação tem estrutura pequena e ganha R$ 500 mil nas costas dos clubes. A sede deles é pomposa. Eu estive lá e vi um lustre cujo valor pagaria parte das nossas dívidas. O futebol é um negócio bilionário, mas os clubes estão sendo explorados por aqueles que vivem no entorno. A bilheteria já não serve para muito. E ainda temos que pagar taxas absurdas aos árbitros e à federação”.

Contudo, eu disse mais: “Num ranking da falta de transparência e pouco caso com os clubes, a Ferj abriria uma vantagem infinita em cima de qualquer outra organização do mundo”.

Aquela era a ocasião oportuna para organizar a estratégia do Fluminense para tirar o Rubens Lopes do caminho. Afinal, no ano seguinte, ele estaria obrigado a passar por uma eleição na Ferj, depois de um longo percurso sem o Campeonato Estadual. O sujeito estaria atrás dos votos em campo aberto, sem poder de fogo. Eu, então, dei tratos à bola. Tentei.

No curso, o Flamengo puxou a ideia de uma Liga. Poderia ser o caminho, mas, de pronto, o presidente do Fluminense, com habilidade, fingiu não entender a proposta, para não dar ao Flamengo o papel de protagonista. O presidente do Vasco só prestava atenção e o pessoal do Botafogo queria muito sem muito querer. Afinal de contas, a rivalidade no futebol é um sentimento não desprezível. Dinheiro, sim. Imagem, mais ainda.

O tempo passou rápido e logo chegou o dia da eleição na Ferj. Como não andamos na direção de enfrentar o Rubens Lopes, ficamos sem espaço para apresentar candidatos. Então, o Fluminense, o Flamengo e o Vasco resolveram não votar no candidato único, para usar a imagem de objeção como forma de impor uma pauta de transparência nos processos de decisão na Ferj. Combinou-se que, encerrado o Estadual de 2014, os clubes voltariam à carga.

Mas, o senhor Rubens Lopes é ardiloso. Reeleito no dia 10 de março de 2014, no dia 9 de abril, um mês depois, aproveitou uma circunstância de necessidade do presidente do Fluminense e estampou, no site da Ferj uma foto dos dois, em grande estilo, apoiada na legenda: “na tarde desta quarta-feira, 9 de abril, uma delegação do Fluminense formada pelo presidente Peter Siemsen, pelo vice-presidente de Futebol, Ricardo Tenório, e pelo representante do clube na Ferj, Marcelo Penha, esteve na sede da Federação em visita de cortesia”.

A marcha esfriou. No Vasco, logo depois, houve eleição e venceu, com larga margem, a boia de salvação do Rubens Lopes. Eu me importei com isso, mas, a velha rivalidade me deu um tranco.

Bem, agora, eleições na Ferj só em 2018 e do Vasco, o presidente Eurico Miranda, certamente, sairá quando quiser e bem entender. O Flamengo sobreviverá sob quaisquer circunstâncias por conta do tamanho da sua torcida. O Botafogo se ajeita. Já o Fluminense, se Deus não for tricolor e o seu presidente insistir em travar guerras com objetivo em si mesmas, sem a estratégia adequada, a situação irá de mal a pior.

Por Jackson Vasconcelos

Foto: Divulgação Ferj

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