Peter, um legado. Mário? Só Deus sabe!

19551528583_f0a2291e79_k

Há um dilema diante do presidente do Fluminense, Peter Siemsen, que cumpre o derradeiro segundo mandato e escolheu, para sucedê-lo, o vice-presidente de Futebol, Mário Bittencourt. Peter precisa decidir se, nos 15 meses que lhe restam de mandato, continuará a reestruturação do clube, iniciada em dezembro de 2010 ou se, em nome da eleição do sucessor, desistirá dela. Digo isto porque quando o tema é planejamento, projetos, visão de médio e longo prazo, ele e o sucessor escolhido por ele pensam coisas diametralmente opostas.

Peter Siemsen tem usado o mandato para fincar fundamentos de gerência que, se sacrificam um pouco os resultados do time de futebol no momento, oferecem ao Fluminense um legado de longo curso. Algo que dará ao clube, por muito tempo, um time altamente competitivo e uma gestão responsável. Os frutos do seu trabalho começam a aparecer. Contudo, precisam de mais tempo para amadurecerem e não sucumbirem diante da primeira aventura, fato bem comum no mundo do futebol. Mário Bittencourt não acredita nessa história de legados. Ele acompanha Keynes: “no longo prazo, estaremos todos mortos”.

Peter Siemsen investiu com dificuldades, mas com convicção, na edificação de uma academia de formação de jogadores, o Centro de Treinamento Vale das Laranjeiras, em Xerém. Ampliou o conceito para incluir a preparação técnica dos jogadores em mercados promissores para a preparação e retorno dos investimentos. O Mário Bittencourt abomina o modelo e, por isso, tem sugerido contratos com jogadores caros, veteranos, valorizados e, na entrevista sobre o planejamento para 2016, concedida à Rádio Transamérica, só falou em contratações. Nada sobre projetos ou avaliação dos resultados obtidos até aqui.

Um novo centro de treinamento faz todo o sentido no projeto idealizado e executado pelo Peter Siemsen. Por isso, ele se empenhou o mais que pode para conseguir o terreno, criou uma vice-presidência específica e entregou-a a quem poderia tornar a ideia uma realidade. O Mário Bittencourt, ávido ultimamente, em oferecer entrevistas coletivas com os olhos na sucessão, em nenhum momento, nem nas bordas das falações, dedicou um dedo de prosa para a construção do CT. Afinal, o dinheiro que é gasto com a obra diminui a capacidade do Fluminense de contratar novos jogadores ou técnicos a peso de ouro.

Peter Siemsen tem gasto energia, juventude, inteligência e paciência com a reestruturação das contas do Fluminense. Afunilou as receitas na direção do pagamento das dívidas, porque reconhece que, ao reduzi-las no presente, abrirá espaços no futuro para investimentos em infraestrutura, que tanto pode ser as obras do centro de treinamento, como a criação de um estádio próprio. A reorganização das contas exige moderação nos gastos no presente, para investimentos no futuro. O Mário Bittencourt aprendeu a cultura do gastar agora, porque o futuro produzirá os seus próprios recursos. Para Mário é melhor um “G-4 na mão e no momento”, do que ser campeão novamente alguns anos adiante.

E, há ainda, a antecipação da campanha eleitoral. Ato deliberado do Mário Bittencourt. Peter não antecipou a dele pela reeleição, ao contrário, atrasou-a o tempo que pode, porque aprendeu que as campanhas feitas na situação, quando antecipadas, sacrificam o projeto principal, gastam muito e impõem escolhas à máquina num momento em que ela deveria estar, inteira, dedicada ao trabalho institucional.

Não tenho nenhum receio em dizer que, se o Peter decidir o dilema preferindo o jeito de pensar o Fluminense e a própria campanha sem olhar o futuro, o time, mesmo que vencedor, voltará à situação de estar escorado numa areia movediça. Tanto mais se mexa, tanto mais afundará.

Por Jackson Vasconcelos
Foto: Nelson Perez/Divulgação FFC

Deixe um comentário