O Sujismundo pode ser artilheiro

Capa.LadoSujodoFutebol2“Prepare o seu coração, leitor… Arrisco a afirmar que depois de ler esse livro até a relação com o seu clube do coração pode mudar”. A frase, que eu registro incompleta, contém o sentido que pretendeu dar ao texto todo o seu autor, o agora Senador da República, ontem deputado federal e antes de ontem, craque de futebol, Romário de Souza Faria, baixinho cheio de marra. E, como marra é exagero, o texto é o prefácio exagerado do livro “O Lado Sujo do Futebol – A trama de propinas, negociatas e traições que abalou o esporte mais popular do mundo”, editado pela Planeta.

Exagerado sim, porque, eu duvido que exista no mundão de gente que habita a Terra, alguém que ainda acredite que o futebol, atividade endinheirada, caminhe ileso aos apelos da corrupção. Só a ingenuidade levaria um torcedor a mudar a relação que tem com o “time do coração”, depois de ler um livro que mostre o lado negro da força.

Os autores, Amaury Ribeiro Júnior, Leandro Cipoloni, Luiz Carlos Azenha e Tony Chastinet buscaram inspiração para o título do livro que escreveram, certamente, nos do jornalista Andrew Jennings, sobre a FIFA: “Jogo Sujo – O mundo secreto da FIFA e “Um Jogo cada vez mais Sujo – o padrão FIFA de fazer negócios e manter tudo em silêncio”, este também com prefácio do Senador Romário.

Num mundo assim, o personagem de Ruy Perrotti – O Sujismundo – que sumiu do mundo das campanhas de publicidade, como o marketing inteligente, do ambiente do futebol, seria artilheiro e campeão do mundo.

Todavia, enquanto o trabalho do jornalista Jennings denuncia, para informar, as entranhas que sustentam o Poder na FIFA, a obra “O Lado Sujo do Futebol” tem o facilmente identificado objetivo de dar o troco no cartola Ricardo Teixeira pela decisão da CBF de preferir a Rede Globo à Record nos contratos dos direitos de transmissão dos jogos. A intenção empobreceu uma obra que poderia ser de excepcional qualidade, se limitada aos comentários e denúncias consistentes, sustentadas nos documentos que oferece aos leitores.

As acusações irônicas, algumas com tom raivoso, usadas para induzir os leitores à conclusões precipitadas, estragaram o livro. A ansiedade de acusar com grande alarde levou os autores para o estilo de comunicação que é próprio aos políticos e jornalistas midiáticos, aqueles que utilizam a pirotecnia verbal e pretextos vazios, para amplificar as acusações.

A narração do acidente de automóvel que matou uma namorada do Ricardo Teixeira, naquele tempo, ainda casado, com a senhora Lúcia Havelange é um exemplo. Outro é o sutil e maldoso comentário sobre a goleada do Barcelona no Santos, na ocasião em que, por baixo dos panos, o jogador Neymar já teria acertado a ida para a Espanha. Outro ainda é o trecho que compõe o Capítulo 6 – “Los Tres Amigos”, quando, para citar o executivo Cláudio Honigman, os autores forçam a barra para chegar à decisão do governo Fernando Henrique Cardoso de privatizar empresas do Estado.

Dizem eles: “Era a época de privataria tucana no Brasil. Sob Fernando Henrique Cardoso, o governo do PSDB entregava o patrimônio público construído com o suor dos brasileiros. Da mineradora Vale do Rio Doce, leiloada à preço de banana, às empresas estatais de telefonia”. Como o senhor Honigman, nem o futebol e muito menos com os desvios de caráter do senhor Ricardo Teixeira têm algo com a política econômica dos tucanos, claro está a intenção do texto.

As fotos de autoridades com o Presidente da CBF, Ricardo Teixeira, os autores usam, com sutileza, na construção de uma imagem de cumplicidade. E, quase todos os presidentes da república estão neste contexto, exceto uma, a senhor Dilma Rousseff que, presente numa das fotos, está salva com a legenda: “O cartola começou a perder poder. Ao contrário de seus antecessores, a presidenta Dilma ignorou Teixeira…”.

Mas, o livro com todos os defeitos que tem embala uma notícia importante: o futebol é uma atividade lúdica que a paixão dos torcedores fez econômica e transformou em dinheiro – em muito dinheiro! A sobrevivência desse magnífico e apaixonante negócio depende do modo como ele é gerenciado e tem os resultados distribuídos com os torcedores.

Por Jackson Vasconcelos

Imagem: Capa do livro “O Lado Sujo do Futebol – A trama de propinas, negociatas e traições que abalou o esporte mais popular do mundo”.

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