O que é a base?

O que é a base? Para os clubes de futebol, uma mentira, se valer o significado que o dicionário da língua portuguesa tem para a palavra: “tudo que serve de sustentáculo ou de apoio, a parte inferior de alguma coisa, considerada como seu suporte; aquilo sobre o qual alguma coisa repousa ou se apoia” (Houaiss).

Campeões da Taça SP de Futebol Júnior em 2011 pelo Flamengo, Matheus, Negueba e Alex, além de maioria dos jogadores da geração campeã, não jogam mais pelo Rubro-Negro

Campeões da Taça SP de Futebol Júnior em 2011 pelo Flamengo, Matheus, Negueba e Alex, além de maioria dos jogadores da geração campeã, não jogam mais pelo Rubro-Negro

Para os dirigentes dos clubes (cartolas) base não é suporte, muito menos sustentáculo e sequer peça de reposição. Jogador da base é acessório, rabicho do fluxo de caixa, socorro para as ocasiões de desespero e dinheiro pouco. Eles olham para a base com um cifrão na retina e, como o lastro da vista deles é, quase sempre, se não sempre, o próximo jogo do time, os valores em perspectiva não entram nas planilhas dos investimentos, mas do custeio do clube. É dinheiro pra pagar salários, água, luz, o conserto do vestiário  e, quando o leão da Receita ruge com mais raiva, os impostos.

Mas, por justiça é bom dizer, que esse papel não é o único que reservam aos jogadores da base. Quando falta dinheiro para ter os veteranos, as estrelas, eles entram em campo e, geralmente, nos piores momentos. Lembro que, em 2013, no jogo que decidiria a queda do Fluminense para a segunda divisão, na casa do adversário – Bahia – sem nenhum pudor despejou-se nas costas de um jovem jogador da base, o Robert, todo o peso da decisão.

As promessas de melhor futuro no Fluminense, em 2012, Elivélton, Anderson, Lucas Patinho e Stéfano nunca mais foram vistos no time principal.

O Fluminense é o meu campo de observação, porque por lá passei quase quatro anos com responsabilidade de gestão. Mas, do que tenho visto e ouvido de outros campos, a situação é bem parecida.

Então, jogador da base, nos clubes brasileiros ou é convertido em dinheiro para pagar despesas urgentes ou é jogado às feras, nas ocasiões ruins. Nunca será, no clube em que começou a sua vida, o ídolo, o craque da casa, o patrimônio profissional e moral mais importante.

E a garotada percebe. Então, fico a conjecturar como deve funcionar a cabeça de um ser humano que é olhado pelo que vale em dinheiro ou pelo potencial que tem para tapar buraco . Neste ponto, recupero um dos mais primorosos textos do Nelson Rodrigues, já utilizados por mim neste espaço:

“O futebol brasileiro tem tudo, menos o seu psicanalista. Cuida-se da integridade das canelas, mas ninguém se lembra de preservar a saúde interior, o delicadíssimo equilíbrio emocional do jogador. E, no entanto, vamos e venhamos: — já é tempo de atribuir-se ao craque uma alma, que talvez seja precária, talvez perecível, mas que é incontestável.

A torcida, a imprensa e o rádio dão importância a pequeninos e miseráveis acidentes. Por exemplo: — uma reles distensão muscular desencadeia manchetes. Mas nenhum jornal ou locutor jamais se ocuparia de uma dor-de-cotovelo que viesse acometer um jogador e incapacitá-lo para tirar um vago arremesso lateral. Vejam vocês: há uma briosa e diligente equipe médica, que abrange desde uma coriza ordinaríssima até uma tuberculose bilateral. Só não existe um especialista para resguardar a lancinante fragilidade psíquica dos times. Em consequência, o jogador brasileiro é sempre um pobre ser em crise”.

Voltarei ao assunto em outras oportunidades, mas não quero vencê-lo hoje sem ter presente o exemplo da relação do Barcelona com o Messi. O texto eu trouxe do livro “11 Gols de Placa, uma seleção de grandes reportagens sobre o nosso futebol”, obra organizada pelo jornalista Fernando Rodrigues:

“Um retardo no desenvolvimento ósseo causado pela quantidade insuficiente de hormônios do crescimento era o grande obstáculo para que o menino argentino Lionel levasse adiante o sonho de jogar futebol. A única opção era pagar um tratamento de US$ 900 mensais, valor impraticável para os Messi, família de classe média de Rosário (norte da Argentina)…O clube local Newell’s Old Boys e o tradicional River Plate recusaram. O Barcelona aceitou. E ganhou uma pérola…”.

Bem, falar o que representa o Messi para o Barcelona e para o futebol mundial é suficiente para sustentar a tese. Ele fez toda a sua carreira lá, situação que por aqui não se vê.

Por Jackson Vasconcelos

Foto: Alexandre Vidal/Fla Imagem

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