“O Cristóvão fica, mesmo que a vaca tussa!”

  • 27 de fevereiro de 2015 |
  • Futebol

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Sábado, 21, publiquei “Cristóvão Borges num toque de mágica”. Bateu lá, bateu aqui. No meio da noite a turma que decide as coisas no futebol do Fluminense reagiu. Até gente que não leu deu palpite, porque lá não é diferente de outros lugares. Em todo canto existe quem dê palpite só por “ouvir dizer”. Afinal, a preguiça para a leitura é o vício deste século.  A turma encasquetou com a ideia de estar no texto, uma previsão de troca de técnico. Não fiz isso, mas lembrei um histórico que anuncia a possibilidade.

Na soma, as mensagens que recebi me avisaram: “O Cristóvão fica, mesmo que a vaca tussa”. Depois veio o jogo, Fluminense 0 x 1 Vasco e, pelo jeito, as mensagens vingaram. O Cristóvão continua firme como uma rocha. Ótimo! Fico feliz e reescrevo o que escrevi sobre o técnico: Não sou experimentado em escalações, treinamentos, esquemas táticos, climas de vestiários, mas aprendi a gostar de futebol e percebo o Cristóvão como bom técnico. É estudioso e pelas declarações que faz à imprensa, se preocupa com todas as circunstâncias que influenciam o jogo”.

Por outro ângulo, já é mesmo tempo de o Fluminense se livrar do título de campeão no ranking dos clubes do mundo que mais trocaram técnicos.

Toda vez que fico diante do tema, me lembro do Bobby Fischer, campeão mundial de xadrez, ídolo dos meus 15 anos e da vontade que tive de um dia ser também campeão. Quatro derrotas feias nos campeonatos de xadrez da escola me mostraram que seria melhor buscar caminhos outros. Mestre em táticas e estratégias, elementos essenciais na composição dos jogos de xadrez e futebol, o Bobby Fischer seria bom técnico?

Tanto mais vivo o futebol, tanto mais estou certo que Bobby Fischer duraria um segundo como técnico de futebol. Bem menos do que têm durado os técnicos do Fluminense.

No xadrez, Bobby fazia miséria, porque as peças obedeciam o seu comando, cumpriam as suas ordens. O cavalo não empacava na hora de saltar em “L”, nem as torres se enchiam de ódio quando expulsas do tabuleiro. Os bispos, não rezavam a própria cartilha. No futebol, os cavalos, as torres, peões, bispos, damas e reis são senhores absolutos da própria vontade e têm alma. Nelson Rodrigues mostrou isso ao mundo, melhor do que qualquer outro entendido no assunto.

Entre as melhores crônicas dele, há uma que deveria estar pregada nas paredes das salas dos técnicos e dos gabinetes dos dirigentes dos clubes de futebol. Copio um pequeno trecho:

“O futebol brasileiro tem tudo, menos o seu psicanalista. Cuida-se da integridade das canelas, mas ninguém se lembra de preservar a saúde interior, o delicadíssimo equilíbrio emocional do jogador. E, no entanto, vamos e venhamos: — já é tempo de atribuir-se ao craque uma alma, que talvez seja precária, talvez perecível, mas que é incontestável.

A torcida, a imprensa e o rádio dão importância a pequeninos e miseráveis acidentes. Por exemplo: — uma reles distensão muscular desencadeia manchetes. Mas nenhum jornal ou locutor jamais se ocuparia de uma dor-de-cotovelo que viesse acometer um jogador e incapacitá-lo para tirar um vago arremesso lateral. Vejam vocês: há uma briosa e diligente equipe médica, que abrange desde uma coriza ordinaríssima até uma tuberculose bilateral. Só não existe um especialista para resguardar a lancinante fragilidade psíquica dos times. Em consequência, o jogador brasileiro é sempre um pobre ser em crise.

Para nós, o futebol não se traduz em termos técnicos e táticos, mas puramente emocionais. Basta lembrar o que foi o jogo Brasil x Hungria, que perdemos no Mundial da Suíça. Eu disse “perdemos” e por quê? Pela superioridade técnica dos adversários? Absolutamente. Creio mesmo que, em técnica, brilho, agilidade mental, somos imbatíveis. Eis a verdade: — antes do jogo com os húngaros, estávamos derrotados emocionalmente. Repito: — fomos derrotados por uma dessas tremedeiras obtusas, irracionais e gratuitas. Por que esse medo de bicho, esse pânico selvagem, por quê? Ninguém saberia dizê-lo”.

E tem mais. Deixo por sua conta, a curiosidade de descobrir se você, por um acaso, já não conheça.

Por Jackson Vasconcelos

Foto: Bruno Haddad/Divulgação FFC

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