Malditas cotas!

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Todo o trabalho dos clubes é feito para que aconteçam os jogos, causa única da paixão dos torcedores, que pagam qualquer preço por bons espetáculos. O escritor Eduardo Galeano abre o “Futebol ao Sol e à Sombra” com uma confissão: “Os anos se passaram, e com o tempo acabei assumindo minha identidade: não passo de um mendigo do bom futebol. Ando pelo mundo de chapéu na mão, e nos estádios suplico: Uma linda jogada, pelo amor de Deus!”.

Mas, há jogos fora dos estádios. Há no canais de rádio e de TV. Também na internet e até nos modernos aplicativos. Portanto, a transmissão dos jogos é uma boa providência para os torcedores, que a gente já conta na casa dos milhões de pessoas. Considerados 12 com maiores torcidas no Brasil, o número vai a mais de 120 milhões.

Quando na garupa da transmissão, vão as imagens de marcas e produtos, as empresas que os vendem fazem negócios e bom dinheiro. Nada mais natural que os canais de transmissão dos jogos e dos produtos da comunicação, que vivem deles, recebam pelo serviço. É o que fazem.

Pelo mesmo motivo, os clubes, produtores dos espetáculos, recebem uma parcela dos ganhos dos canais de transmissão. O valor é fruto de uma negociação, que, por óbvio, determina que quem compra procure alcançar sempre o menor preço e quem vende, tente o maior. O negócio ocorre no ponto de equilíbrio, que, imagina-se, seja o menor preço possível para quem compra e o maior para quem vende.

Essa relação comercial se desequilibra quando um dos lados comparece frágil à mesa de negociação. É, o que acontece na relação de comércio da transmissão dos jogos. Os clubes, vendedores do espetáculo, chegam à mesa de negociação, fragilizados pela qualidade dos que negociam por eles e pelo estrangulamento financeiro, apertado ao ponto de fazer deles, escravos do processo. Uma das situações que caracterizam o papel do escravo é a sua dependência econômica a quem o escraviza ao limite da absoluta subserviência.

Pelos clubes, até 2011, negociava uma organização, o Clube dos Treze. Opaco, como quase todas as organizações brasileiras e como todas as esportivas, ele deixou crescerem minhocas na cabeça dos associados e, na do comprador, a convicção de ser duro demais. Por isso, possivelmente, a Globo ajudou os clubes a enterrarem o Clube dos Treze. Eu vivi aquele momento, na posição de expectador privilegiado, por ser o principal executivo do Fluminense.

O ambiente calmo, ao ser agitado, estimulou concorrência. A Record, então, se aproximou do processo e, ao se aproximar, fez a Globo se mexer. Ela, imediatamente, ofereceu aos clubes luvas para assinarem com ela os contratos de transmissão, por um período longo: de 2012 a 2015, com renovação automática e valores maiores para valer de 2016 a 2018. Não precisou muito mais.

Pelos clubes, negociaram os presidentes. Só eles. Gente bem intencionada, mas que não pode fazer do futebol a sua ocupação principal. E que, quando cuida do futebol, não consegue tempo para coisa alguma que vá além da organização do jogo seguinte e o lamuriar ou rir às lágrimas do resultado do jogo anterior.

Fragilizados pela incapacidade de dedicação absoluta ao negócio, os presidentes representaram clubes com a corda no pescoço, com dívidas de tamanho insuportável, loucos, portanto, por dinheiro, como por água, boa ou ruim, ficam os que têm sede.

Pela Globo, apresentou-se um profissional de elevado gabarito, que tem as manhas da negociação nas veias e conta com o apoio de uma estrutura técnica de nível idêntico. Representava a organização que, em tese, tem todo o dinheiro do mundo para fazer os melhores negócios.

O que se deu e se dá numa mesa composta desse modo? O melhor, o mais equipado e dedicado, vence. Se comprador, pagará pelo produto um preço menor do que ele vale. Por óbvio!

Então, a Globo, pelo preço que definiu unilateralmente como justo conquistou o direito de transmitir os jogos por todos os canais, TV aberta, Pay Per View, Exploração Internacional, internet e aplicativos. Levou no pacote as placas de publicidade que estão visíveis nos estádios e as imagens expostas nos telões. Também a prerrogativa de ceder com exclusividade as imagens dos jogos para os canais próprios dos times.

Para os sufocados clubes, ambiente em que todo dinheiro é bom, a conversa no primeiro momento foi ótima. Mas, como esse tipo de coisa tem perna curta, os clubes começam a chiar. Mas, terão o atrevimento de rediscutir a distribuição, depois de luvas e adiantamentos? Sim, porque é usual os clubes, na hora do aperto, buscarem dinheiro no futuro para trazer para o presente e pagar o passado. Adiantamentos que viciam tanto que estão na pauta dos legisladores, enquanto discutem a MP que, novamente, transfere para o contribuinte a conta da inadimplência dos clubes.

O modelo de distribuição – de cotas – adotado pela Inglaterra é tido como o melhor pelos itens que valora. Quando comparado ao aplicado aqui, mostra a primeira e mais cruel incongruência (tabela abaixo). Vejam lá, que o desempenho esportivo ruim é premiado.

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Como mudar isso? Com o retorno à mesa de negociação. Mas, com os clubes com uma representação menos fragilizada. A isso chamo, mudança no modelo de gestão.

Por Jackson Vasconcelos

Tabela: Dados de Christiano Candian, divulgado no Diário de Pernambuco – Blog Esportes, por Cassio Zirpoli.

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