Joseph Blatter, uma lição

JOSEPH BLATTER

Por que o Joseph Blatter renunciou e convocou nova eleição para a Presidência da FIFA, no dia seguinte à reeleição? Isso não pareceu coisa de doido? Mas, de doido o homem nada tem. Então, qual o motivo? Na opinião de dez entre dez analistas e palpiteiros, onze ou doze causas diferentes tentam explicar o fato.

Natural, porque é grande a dificuldade para qualquer ser humano, mesmo próximo da fonte da decisão e tendo todas as informações, encontrar, sem errar, as razões da ação humana. Então, eu também estou autorizado a oferecer, no caso do Blatter, a minha.

Inicio com as lições que recebi do professor Ludwig Von Misses contidas no livro “Ação Humana”: toda decisão representa uma escolha e, para agir – trocar de posição na vida – nós trabalhamos, mesmo no subconsciente, com duas variáveis: o desconforto com a situação em que nos encontramos e a certeza de que, ao mudar, estaremos trocando a posição atual por algo melhor. E, não basta ter consciência do desconforto, porque, sem alguma garantia de ser a mudança para melhor, ninguém agirá. Na dúvida, ultrapassar é risco absoluto de criar para si um problema. É assim com o emprego, com o casamento, com o endereço onde se mora e todo o resto.

Com a ajuda do professor Misses, vamos às decisões do Joseph Blatter. Ele escolheu mandar a candidatura à reeleição, mesmo diante da possibilidade real de parecer um aloprado, na onda das denúncias e prisões que atingiram a FIFA e diretores proeminentes e da exposição pública do convite que lhe fez o Presidente da UEFA, Michel Platini. Mas, se desistisse, teria entregado a FIFA a um adversário que o tiraria, em definitivo, da história da FIFA e a chance, mesmo pequena, de recuperar a imagem pessoal. Poderia ser humilhado com uma derrota acachapante? Poderia, mas o desconforto de ser investigado tendo um adversário no comando da FIFA seria maior. Joseph Blatter, então, escolheu alcançar algum grau de satisfação.

Uma vez reeleito, Joseph Blatter conseguiu substituir a insatisfação primeira por uma situação um tanto melhor, mas, com a idade que tem, cumprir todo o novo mandato com a FIFA exposto sempre com a imagem de responsável direto pelos problemas criados ali, seria novo desconforto. Joseph Blatter decidiu, então, mudar da posição desconfortável de presidente questionado pela de um presidente que conduzisse o processo de sua sucessão, para colocar na Presidência da FIFA, alguém que lhe dê garantias minímas ou de ser esquecido ou de, pelo menos, ser lembrado com uma imagem positiva. Optou pela renúncia com prazo elástico de efetivação com a chance de influenciar o processo de escolha do sucessor.

O processo Joseph Blatter de decisão é lição para os presidentes dos clubes de futebol, uma gente que decide embalado pela emoção extrema, sem avaliação dos riscos e com nenhum cuidado com o dia seguinte ao do próximo jogo. Afinal, “as emoções sem freios, bem comuns e legítimas aos torcedores de futebol, não ficam bem nos dirigentes dos clubes, porque deles retiram a frieza de espírito necessária à análise e à opção pelas melhoras decisões” (do livro de minha autoria, “O Jogo dos Cartolas – Futebol e Gestão”).

Deixe um comentário