Futebol: política debaixo do tapete

aidarabilio“O que estraga esse troço aqui é a política!” Ouvi a frase mil vezes, ditas de todas as maneiras durante o tempo em que trabalhei com o Fluminense. Reencontrei-a ontem num papo com alguém que vive tempo de campanha no Flamengo. Dizia ele: “sou empregado remunerado e não posso ter lado, mas ando cheio com a política no Flamengo. O time está uma merda e ninguém sabe quem manda”.

Poucas horas depois, voltei a pensar no tema, ao abrir a Folha de São Paulo e encontrar a notícia: “Novo plano de gestão causa racha na diretoria do São Paulo”. Ela diz que o Chief Executive Officer do Clube (título que dá, no Brasil, exuberância à função de gerente executivo), Alexandre Bourgeois, tem pronto um plano para modificar o modelo de gestão corporativa. A intenção é reduzir o poder de influência dos conselheiros – agentes políticos – nas decisões administrativas. Por isso e por lógica, a ideia enfrenta resistência e Bourgeois, a antipatia do comando.

Já fui personagem num filme semelhante e posso imaginar dois finais. Ou será pela composição, situação em que cada lado cederá um pouco para no resultado final ficar tudo como antes, ou o matemático Bourgeois procurará novo emprego se não quiser trocar o papel de ator pelo de coadjuvante.

Do projeto Bourgeois eu só conheço o que me diz a imprensa. Ele tem alicerce, me parece, na preferência de entregar o poder de decisão administrativa a profissionais remunerados e selecionados pelo mérito. Todavia, não modifica a relação profissional do presidente e dos vice-presidentes com o Clube. Eles continuarão sendo abnegados torcedores à disposição dos colegas que estão nas arquibancadas. Remendo em pano velho, um sacrifício vão!

Essa gente que comanda os clubes de futebol sem remuneração, por isso, voluntarista, está nas funções por um monte de motivos, mas nenhum deles, por obrigação profissional com o resultado do trabalho. E, não há exceção. Sem obrigação, o que esse povo tem conseguido fazer está aí diante dos olhos de todos, para desespero do contribuinte, que no final tem pagado a conta e do torcedor que não consegue mais, por dinheiro algum, bons espetáculos.

Calma lá! Não falo de intenções, porque elas podem sim ser boas por parte de alguns. Eu me refiro à obrigação. É necessário que o trabalho dos presidentes e vice-presidentes perca o caráter de colaboração filantrópica, realizado na sobra do tempo. A mudança também resolveria outro problema: a velha cultura que faz dos voluntaristas uma classe superior à dos profissionais remunerados, “gente que só trabalha por dinheiro”.

O esplendor dos chiefs (Executive Officer, Financial Officer, Chief Marketing Officer e quantos mais existirem na escala de opulência dos gerentes-executivos) está em alta nos projetos e nos debates e em baixa na aplicação, porque o poder político não aceita perder fôlego para os “empregados” do clube. E, os reformadores do sistema preferem empurrar a causa real do problema para debaixo do tapete e buscar solução resolvendo os danos. Isso nunca funcionou pra coisa alguma.  

Por Jackson Vasconcelos

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