Futebol: A união não faz a força

Capa.Relatorio.RodrigoCapeloOs clubes de futebol são fontes de negócios milionários, mas, no Brasil, ainda são governados por voluntários apaixonados, alguns até fanáticos (torcedor no manicômio, como definiu Eduardo Galeano). Gente que outro motivo não têm para a função, além da chance  de ver o seu time vencer o próximo jogo. O resultado de um clássico vale qualquer dinheiro e evitar o rebaixamento, todo o dinheiro do mundo.

Por isso, não há nos clubes espaço algum para planejamento nem lugar de mérito para um departamento de marketing. Para os cartolas, as cotas de TV são atos de generosidade dos concessionários dos canais; os patrocínios nos uniformes, gentileza dos patrocinadores e os contratos de exploração da imagem, complementos salariais sem valor comercial.

Li, com atenção e cuidado com todos os detalhes, o trabalho “Receitas do Futebol – Como 150 clubes arrecadam dinheiro”, do jornalista Rodrigo Capelo, que, por méritos próprios, é mesmo, um especialista em negócios do futebol e marketing esportivo. O texto está disponível para download desde o dia 20 de maio no blog “Dinheiro em jogo”, do Globoesporte.com.

Nele estão organizadas, comparadas e comentadas as informações dos balanços de 150 clubes de futebol do Brasil e do mundo e uma série de curiosidades interessantes, que vale a pena visitar.

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Vejam o caso do Flamengo. O relatório localiza o clube na 40o posição no ranking das receitas auferidas, apesar de o time contar com uma torcida que é, em número, muito superior as dos demais 149 avaliados e estar com administradores considerados, pela imprensa, de excelência.

O que isso quer dizer? Resposta simples: o departamento de marketing do Flamengo, apesar de orientado por gerentes quase perfeitos, não consegue explorar a capacidade potencial que tem a torcida para produzir receita. E, a falta de dinheiro é o argumento do administrador do fluxo de caixa, para não entregar à torcida lindas jogadas, belos espetáculos e ídolos capazes de levar a emoção à loucura, como gostam os torcedores e manda o cardápio do marketing esportivo.

Os dados apresentados no relatório permitiram o autor afirmar, já no finalzinho do trabalho, que é mesmo, muito bom, o seguinte: “Em paralelo, o Brasil continua dez anos atrás da Europa na gestão de seus clubes. Principalmente, porque não tem uma liga…”.

Corretíssimo o fato, equivocada, ou pelo menos, muito adiantada no tempo, a causa a ele atribuída. Uma Liga, por si só, não fará com que o futebol no Brasil seja melhor ou pelo menos se aproxime do europeu.

Afinal, o que foi o Clube dos Treze, se não um modelo de negociação coletiva com o objetivo de melhorar as vantagens comparativas? Por que não funcionou? Porque há a Lei da Força, que o próprio Rodrigo Capelo trouxe em outro texto, mais antigo, publicado por ele na revista Época Negócios, no dia 06 de março de 2013, para falar sobre o papel dos líderes nas organizações e empresas.

A Lei da Força orienta a coletividade das galinhas, onde a hierarquia segue a ordem linear das bicadas. A galinha que  bica mais as outras galinhas tem acesso aos melhores lugares para se alimentar, descansar e colocar os ovos”. É como se dá, por exemplo, a relação dos quatro grandes clubes do Rio com a Federação de Futebol. Dois pra cá lado, cada um bicando o outro, para ocupar as melhores posições.

Pode ser que tenha razão o Rodrigo Capelo sobre a força de uma Liga para mudar o futebol brasileiro. Contudo, não consigo crer que uma Liga formada por clubes com vícios no modelo de gestão não os absorva. Do jeito como a coisa anda, a união é impossível, porque inexiste meios para unir egos, interesses divergentes e rivalidades à flor da pele.

Por Jackson Vasconcelos

Imagens: Blog Dinheiro em Jogo / Melissa Lüdeman

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