Falta bom senso. O resto é “futebol clube”

2015.0202.ArtigoOGlobo

“A nova loteria é uma receita para fortalecer nossos clubes, manter nossos craques por mais tempo, valorizar o espetáculo e assim criar um círculo virtuoso no futebol brasileiro”- Orlando Silva, Ministro dos Esportes, quando foi sancionada a lei que criou a Timemania.

Há quem esteja feliz com o veto da Presidente ao artigo da Medida Provisória, que aliviaria a vida dos clubes de futebol. Nunca por ser contra a moleza, mas por querer que ela venha com punição para os reincidentes.

Neste ambiente estão o Bom Senso FC, Romário, Otávio Leite, outros personagens e papagaios de pirata. O grupo, fonte de boa parte das dívidas, devido às altas remunerações e indenizações que receberam alguns dos seus membros, quer impor aos dirigentes dos clubes, uma penalidade que o Estado nunca aplicou aos demais devedores contumazes. Embora sempre prometesse e ameaçasse. Em todas as suas instâncias, ele sempre premiou a inadimplência com novos parcelamentos e dispensa de multa e juros.

Independente do formato que se dê agora ao parcelamento e da inverdade de ele não conceder benefício fiscal, o prejudicado no final da linha é e sempre será o contribuinte, que paga os impostos com absoluta regularidade.

O mais engenhoso dos instrumentos é a Timemania, criada em 2006, pois deu aos clubes acesso direto a uma parte dos valores a pagar, representada pelas apostas. O que não evitou que, de 2009 a 2013, os 24 principais clubes brasileiros criassem quase 100% de dívidas novas (relatório recente da BDO Auditores Independentes).

Outra questão me traz para o tema: o comando dos clubes. Quem se arriscará a ser presidente de um clube se prevalecerem as 21 sentenças lavradas pelo senhor Otávio Leite, no projeto que ele fez seu? Os presidentes dos clubes não podem ser remunerados, não recebem salvaguardas patrimoniais e ainda colocam as suas imagens à execração pública, quando o time faz das suas. E, embora seja razoável admitir que as penalidades ficarão no campo da retórica sem prática, não se pode exigir que os candidatos a presidente confiem nos costumes de governos que adoram premiar inadimplentes.

Então, já que andam a pedir punição para os dirigentes, façam o serviço completo: reformulem a legislação do esporte, para permitir presidentes e diretores remunerados e a justa penalidade para os atos de irresponsabilidade na gestão. Outra providência conveniente será impor teto para os salários dos jogadores, comissões técnicas e para todo o resto. Acredito que a medida não agrade ao Bom Senso FC, por óbvio. Estamos diante de um bom momento para ousar.

Se não for assim, a chance de existir gente bem intencionada e competente na direção dos clubes é zero. E como, sem a presença do Cristo, os vendilhões tomam conta do templo, fica fácil saber que, o que já anda bem ruim por aqui, tem muita chance de piorar.

– Artigo publicado em  O Globo (“Falta de bom senso”)

Por Jackson Vasconcelos

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