Eurico Miranda, outra vítima da emoção

Nenhum entusiasmo do mundo faria o presidente de uma empresa anunciar um produto sem tê-lo pronto para a venda. Os prejuízos para a imagem de uma empresa ou de uma marca no caso da venda antecipada de um produto fictício são incalculáveis! O amadorismo ou voluntarismo no futebol permite que isso aconteça, fácil, fácil. Vamos ao caso.

Eurico.ColetivaCom barba por fazer, meio largado, magro, sem o charuto que lhe dá segurança, com aparência de um mendigo, o experiente Eurico Miranda, Presidente do Vasco da Gama, caiu na armadilha da ansiedade de dar ao torcedor do time uma novidade, qualquer que fosse, mesmo que ela não existisse ainda.

Diante da imprensa para cumprir o papel de, simplesmente, anunciar um novo técnico, Eurico Miranda percebeu que precisaria oferecer algo mais ao torcedor, para reerguer a moral do grupo. Só o novo técnico não empolgaria, porque, na verdade, ele não é lá muito diferente do antigo e não tem experiências ao longo da vida, que emocionem os torcedores.

Eurico, então, entregou de vez a agenda aos repórteres e, num bate pronto, comunicou a chegada de novos jogadores: Léo Moura, Herrera e Ronaldinho Gaúcho. O que aconteceu adiante mostrou que ele poderia ter garantido a contratação até do Messi.

Nas mídias sociais, a torcida do Vasco explodiu de emoção e repetia o slogan do retorno do Eurico à Presidência do Clube: “o respeito voltou”. Na outra ponta, os flamenguistas esperneavam de indignação com o Léo Moura, que marcou a história recente do clube.

O Eurico, prevendo o tema, avisou: “Eu aprendi durante esses anos todos que, em relação à torcida, uma coisa que é hoje, amanhã é diferente. Não é por aí. Reafirmo isso. Jogador é profissional. Faz juras de amor hoje e amanhã faz outra. Não tem nada a ver. Há possibilidade de um dia você ter alguma ligação com o Flamengo, claro que não. Mas qualquer um outro pode. Léo Moura jogou aqui. Depois é que ele foi pro Flamengo. Não me preocupo se a torcida vai gostar ou não vai gostar. Torcida só quer saber de resultado. Não quer saber se está pagando jogador, se está em dia. Ou se pintou a sede”. Palavras de ordem de um experiente senhor. Será?

Sem demora, a situação inverteu. O Léo Moura desmentiu o anúncio antecipado e avisou à torcida do Flamengo, que para o Vasco não irá. Eurico Miranda, como sempre, depois do susto, desdenhou, mas com cara de João-Ninguém, em entrevista à imprensa nesta terça-feira, 23/06 (confira na ESPN).

Com mais paciência, o portentoso e absoluto presidente do Vasco da Gama deve ter verificado que a declaração dele sobre a relação do Léo Moura com o Flamengo, numa direção invertida, serviria para explicar o final da história. “Jogador é profissional. Faz juras de amor hoje e amanhã faz outra”.

Num ponto, o Eurico está certíssimo. A torcida só quer saber do resultado. Não quer saber se está pagando o jogador, se está em dia. Ou se pintou a sede. Ocorre que, para oferecer à torcida os resultados, é preciso sim, pagar o jogador e pintar a sede. Melhor dizendo: o inteligente e pragmático torcedor vai direto ao ponto, mas o caminho até chegar a ele é função do presidente do clube. Cabe a ele pagar os salários, pintar a sede e não fazer papel de bobo.

No vídeo abaixo, da mesa redonda sobre o livro “O Jogo dos Cartolas”, mais detalhes sobre a minha tese em relação a figura do presidente de clube de futebol. Confira!

Por Jackson Vasconcelos

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