É o bicho!

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Qual é o problema de pagar o bicho para os jogadores quando o time alcança metas combinadas, atitude que, dita com mais elegância e primor técnico, significa premiar com dinheiro o bom desempenho em campo? Provavelmente, nenhum. Então, por que o constrangimento com o tema? Porque é legítimo admitir que a medida, na verdade, não premia o bom desempenho, mas o cumprimento de uma obrigação: jogar bem. Então, qual o sentido do salário?

O pagamento do “bicho” indica desequilíbrio de interesses: o clube paga por algo que só tem importância para ele. As vitórias e derrotas não contam como elemento de avaliação do desempenho dos que causam os resultados. Por mais absurdo que isso seja, a realidade no futebol brasileiro é essa. Se não, por que jogadores e técnicos demitidos de um clube por desempenho ruim encontram novo emprego facilmente? E, por vezes, até no mesmo clube de onde saíram?

A premiação pelo cumprimento do dever é o que conceitua a propina, elemento que vicia.

Durante a semana, o presidente e os jogadores do Grêmio assinaram um acordo para pagamento do “bicho”, porque o time bateu 10 jogos seguidos sem derrota antes de enfrentar o São Paulo, no último domingo. A notícia está no Globoesporte.com:

“O Tricolor fez uma releitura da recompensa por tempo de permanência no G-4 e por um agrupamento de um número de vitórias. O acordo, assinado pelo departamento de futebol e pelo capitão Maicon, também deixa uma parte do montante a ser pago em uma poupança, para ser repassada aos jogadores ao fim do Brasileiro.

A cada três jogos – de vitórias, obviamente -, o clube repassa a premiação aos atletas. Além disso, conta a permanência no G-4, algo valorizado. Por este ponto, uma parte apenas da quantia é dada aos atletas. A outra é depositada para que seja dada ao grupo apenas quando o objetivo for atingido, ao final da competição(…). Na festa de aniversário do Grêmio, na última sexta-feira, o presidente Romildo Bolzan Júnior escancarou a situação. Durante seu discurso, lembrou um encontro com Giuliano para acertar mais um pagamento dos prêmios por desempenho.

– Vou cometer uma inconfidência. Estava com o Giuliano acertando mais um pagamento de premiação e falei: “Assim vocês vão acabar quebrando o Grêmio”. ”É nossa intenção presidente” – disse o mandatário gremista, entre risos dos atletas e dos presentes na esplanada da Arena”.

Faz todo o sentido, porque o pagamento do “bicho” é uma decisão que, na origem, acompanha todas as outras num clube de futebol: desespero e euforia, sem qualquer relação com o fluxo de caixa ou com a capacidade de pagamento. Afinal, “o coração (a paixão) tem razões que a própria razão desconhece” (Pascal).

A premiação em dinheiro deveria estar vinculada a resultado em dinheiro. O que ganhará o Grêmio, em dinheiro, se os jogadores cumprirem as metas? Se alguma grana a mais, é legítimo que distribua com o elenco, parte do resultado. Mas, a gente sabe que nem sempre é desse modo. Os clubes pagam o “bicho” com sacrifício das obrigações financeiras.

E o “bicho” vicia. O corpo mole num jogo pode facilmente ser substituído pela garra no jogo seguinte se entre um e outro nascer a promessa de premiação. Mas, como o futebol é magia, os torcedores que não visitam os vestiários nem os bastidores dos jogos acreditam piamente que o mal desempenho substituído é resultado da mudanças dos dias ruins em dias bons.

Todavia, nem sempre o “bicho” faz o milagre da multiplicação dos bons resultados. Vejam o caso do Fluminense. No dia 10 de julho, tempo da 13ª rodada do Campeonato Brasileiro, a imprensa publicou:

“O elenco do Fluminense entrou em campo na quinta-feira e venceu o Cruzeiro, por 1 a 0, no Maracanã, com os salários em dia. Durante esta semana, o clube depositou os três meses de direito de imagem que estava devendo de  aos jogadores. O atraso já criava um desconforto dentro do grupo.

Como forma de incentivar os atletas neste bom início de Campeonato Brasileiro, a diretoria voltou a praticar o pagamento de “bichos” por vitórias, o que não acontecia, por exemplo, durante o Campeonato Carioca. Em alguns casos, empate também garante direito ao bônus – como no 0 a 0 com o São Paulo, no Morumbi”. Do Globoesporte.com, de Fred Huber e Sofia Miranda.

Nas doze rodadas seguintes, o Fluminense sofreu nove derrotas e empatou duas partidas.  Caiu do 4º lugar para o 11º da tabela. Não é preciso dizer mais.

Por Jackson Vasconcelos

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