De Havelange a Jérôme, passando por Siemsen

JH.PP

Por que África, Rússia e Catar? João Havelange escolheu há 41 anos para chegar à Presidência da Fifa quando redesenhou o colégio eleitoral. O diplomata francês e consultor de esporte Jérôme Champagne é um dos candidatos a disputar o cargo na eleição que acontecerá no dia 26 de fevereiro. A VEJA fez uma entrevista com ele e deu-lhe o espaço nobre das Amarelas.

IMG_20160108_111057847_HDRNa revista, Jérôme fala sobre as causas da escolha da África do Sul para sediar a Copa de 2010 e da Rússia e Catar para as próximas. Não lembrou que a África, a Rússia e, por aproximação de propósitos, o Catar estão no mapa da Fifa, porque foram, há 41 anos, elementos da estratégia que elegeu João Havelange.

Para vencer o poder tradicional, um grupo de cartolas europeus que não permitia a alternância de poder e, muito menos, a invasão dos “bárbaros” latino-americanos, João Havelange adotou uma estratégia demolidora e deixou uma lição para o mundo das campanhas eleitorais: vence a melhor estratégia, porque um dos elementos essenciais dela é avaliar com exatidão as ameaças e oportunidades dos projetos.

Presidente da Seleção Brasileira, João Havelange ganhou visibilidade com a conquista do tricampeonato no México, em 1970 e aproveitou a oportunidade para ser percebido pelo mundo internacional do futebol e agir. Posicionou-se como candidato, primeira providência essencial nas campanhas eleitorais para qualquer cargo.

João Havelange sabia que com o colégio eleitoral tradicional não teria a menor chance de vencer, porque a presidência pertencia aos europeus, que fizessem parte da oligarquia do futebol. Ele, então, buscou um caminho para ampliar o colégio e tentar se eleger com os votos dos eleitores que não tinham o costume de votar.

Começou pela África, numa conversa com o Presidente da Confederação Africana. Como campanha que se preze tem promessas, ele prometeu colocar a Fifa na luta contra o racismo ao aumentar o número de vagas do continente na composição do órgão. Ótimo, mas isso não era suficiente para ter os votos dos africanos. Pediu a ajuda do Pelé que na África era rei antes de ser rei no mundo todo. Ainda assim, faltava resolver um obstáculo. As delegações dos 14 países africanos não podiam votar, porque deviam as cotas anuais e inadimplentes não votam. Havelange, com o dinheiro de um amigo, Elias Zaccour, pagou as cotas.

Resolvida a África, João Havelange partiu para a Rússia e fez aliança com os soviéticos. Surpreendeu os adversários, cartolas tradicionais e venceu a eleição. Imaginava-se que ele derrotaria a oligarquia para mudar a estrutura de poder da Fifa. Nada disso. João Havelange ficou 24 anos na presidência da instituição e entregou-a ao Blatter, que ficou mais 17 e só, porque foi expulso de campo.

Mas, com João Havelange e os acordos que ele fez com o mercado, a cadeia produtiva do futebol passou a produzir fortunas, que os cartolas tradicionais derrotados por ele nunca imaginaram possível. O cumprimento das promessas dele para a África e Rússia ampliaram o alcance do futebol como atividade econômica de alto lucro no mundo todo.

Fui apresentado ao João Havelange em 2010, na eleição para a presidência do Fluminense. Ele foi a Laranjeiras para votar no Peter Siemsen, que venceu a eleição com uma estratégia semelhante a adotada pelo Havelange em 1974: ampliação do colégio eleitoral. Peter aproveitou uma brecha no estatuto do Fluminense para filiar novos sócios. Fez uma excelente campanha de mobilização, associou mil novos sócios e com ele venceu a eleição.

Fica a lição: vence eleição quem aplicar a melhor estratégia.

Por Jackson Vasconcelos

 

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