As “veias abertas” da CAIXA

Agencia.Caixa

Merece crítica o patrocínio da Caixa Econômica Federal para os clubes de futebol? O ex-presidente do Atlético Mineiro, Alexandre Kalil diz que sim, porque a CEF é estatal e o seu dinheiro “ou é pra todo mundo ou pra ninguém”. Eu, por razões, diferentes, também critico o patrocínio.

A ESPN transmitiu nesta terça-feira, 28, no programa “Bola da Vez”, uma entrevista com o senhor Alexandre Kalil. Sempre polêmico, ele criticou quase tudo e quase todos sobre o patrocínio da Caixa, disse ele:

“Patrocínio estatal para uns e não para outros. Ora, isso é coisa muito grave. O Atleticano está pagando imposto pra colocar a marca da Caixa na camisa do Flamengo e pra gastar dinheiro com o Corinthians. E o meu, eu tenho que me virar lá em Belo Horizonte. O Cruzeiro está sem patrocínio. Isso não é motivo de crítica? Eu não entendo. Ou é todo mundo ou é ninguém. O governo além de não dar, toma”. Neste ponto, Kalil fez referência às penhoras promovidas pela Justiça, por requisição da Receita Federal.

Entende o nobre Kalil, portanto, que o patrocínio da CEF é dinheiro de todos e, sendo de todos, é de ninguém. Um sentimento que é usual. Contudo, é fácil verificar no correr da entrevista, que na raiz dos argumentos dele, legitimamente, está colocado o fato de a CEF não ter patrocinado o Atlético Mineiro. Uma dor de cotovelo, que encontra razão na negativa da CEF de patrocinar o time do Kalil, enquanto dá dinheiro para outros times de todos os portes, sejam grandes como o Flamengo e o Corinthians, sejam minúsculos  como o Avaí ou Atlético Goianiense.

Eu critico o patrocínio da CEF, por outro motivo. Estatal ou não, a empresa tem a obrigação de selecionar os seus investimentos e, por isso, não deve assumir a posição de “ou é todo mundo ou é ninguém”. Afinal, entre os clubes de futebol, há, com certeza, os que oferecem mais ou menos retorno para os patrocínios que recebem.

A decisão de patrocínio de uma empresa deve garantir aos seus acionistas o mais alto retorno com o mais baixo risco. E, o fato de a CEF ser estatal coloca no leque dos seus acionistas o pagador de impostos e na sua linha de comando, os interesses do governo. Num país democrático, os dois elementos se afunilam.  Eu sou um dos pagadores de impostos, então, quero saber o que fazem o governo e as suas empresas com o meu dinheiro, para exigir que ele seja bem aplicado e me garanta um bom retorno ou, pelo menos, diminua o peso dos impostos sobre os meus ombros. E, sabe-se que tanto mais dinheiro consigam os governos em outras fontes, menos eles estrangulam os contribuintes.

A CEF, por esses motivos, está obrigada a divulgar para o público os critérios de seleção dos patrocínios que oferece e, depois, apresentar o grau e o tipo de retorno que obteve.

A Caixa coloca nos clubes de futebol que escolheu, não se sabe bem com que critérios, algo em torno de R$ 110 milhões/ano, valor que equivale ou chega perto do orçamento anual de alguns clubes da Série A do Campeonato Brasileiro. O dado me veio de uma entrevista que o Superintendente Nacional de Marketing da empresa, Gerson Bordignon concedeu ao veículo Meio & Mensagem. Na entrevista ele afirma, ainda, que os patrocínios no futebol têm o propósito de transmitir ao público uma mensagem de dinamismo e agilidade com potencial de rejuvenescimento da marca, para incrementar os relacionamentos institucionais e negociais e permitir o desenvolvimento de produtos e serviços destinados às pessoas físicas e jurídicas ligadas à cadeia de valor dos clubes de futebol. Mas, não prova isso.

No final, a gente não consegue saber o que e quanto a CEF recebeu de volta, em depósitos, em negócios ou dinheiro vivo para novos investimentos. A empresa não demonstra. Eu, pelo menos, não consegui encontrar a resposta nem revirando os balanços.

O que se pode dizer com base nos resultados financeiros apresentados pela CEF ao distinto público – contribuintes inclusive e principalmente – é que os R$ 110 milhões de patrocínio para os clubes de futebol sequer arranham as finanças da empresa, que apresentou no ano de 2014, um lucro de R$ 7,1 bilhões e um resultado operacional de R$ 6,6 bilhões, valor 27,7% superior ao de 2013. Mas, se o quesito em análise for o grau de transparência e dos valores institucionais que devem nortear a gestão de uma empresa estatal, a cicatriz do arranhão anda a provocar infecções graves na imagem da empresa.

Por Jackson Vasconcelos

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