As novelas e os políticos

Dá pra aproveitar no desenho de estratégias para campanhas, a entrevista do Silvio Abreu às amarelas da VEJA. Autor de novelas e diretor do departamento da TV Globo que cuida do gênero, Silvio dá informações, com certeza, baseadas nas pesquisas qualitativas que a TV faz para criar as novelas.

Diz Silvio Abreu:

1) Sobre ética:

“Nos tempos de Lula e companhia, ninguém achava graça nos personagens que se pautavam pela ética. O espectador via o mundo assim: se você faz qualquer coisa para se dar bem na vida e conseguir vencer, que problema há nisso? Hoje o humor do público mudou. As pessoas estão cansadas do mar de lama. Até algum tempo atrás, nossas pesquisas com os espectadores detectavam um mau humor geral: ninguém queria ver tramas pesadas e com personagens negativos, como Babilônia e A Regra do Jogo. Todo mundo ficou com ojeriza ao noticiário e, sobretudo, à vilania nas novelas. ‘Não quero ver na novela uma continuação do telejornal”, ralhavam. A própria sociedade entendeu que o vale-tudo não é o caminho”.

Então, minha gente, esqueça peças que só reclamam dos governos e dos políticos e tirem correndo da tela aqueles que carregam a imagem da esperteza, do “vale-tudo, só não vale perder”.

2) Sobre conhecimento da história do Brasil:

“Fiquei chocado ao constatar que as pessoas achavam que dom Pedro I descobriu o Brasil, já que a novela se chama Novo Mundo e tem caravelas, só podia ser sobre o descobrimento. Eles nem sequer sabiam que o Brasil havia sido colônia de Portugal. A gente precisou explicar que o Brasil tinha sido descoberto em 1500. Até aí, tudo bem. O nome da novela podia levar à confusão. Só que quando fizemos uma pesquisa similar sobre “Os dias eram assim” (atual novela das 23), percebi que o problema era ainda maior. Os participantes não tinham noção do que aconteceu no Brasil da história recente. Os mais jovens ignoram que houve um golpe militar em 1964 e uma ditadura militar. “Ah, só ouvi falar, mas não sabia se era verdade”. Por isso, tem jovens por aí, em grande número, a defender o retorno dos militares e militares inescrupulosos aproveitando-se da desinformação para auto-promoção.

Então, esqueçam os dados da história. Foquem no presente e no futuro. E nem de longe tentem vencer os reacionários pelo exemplo do que os seus colegas fizeram no passado. Mostrem o conflito da tese com a existência da liberdade.

3) Sobre como levar a mensagem:

A VEJA perguntou: “Em 2015, Babilônia causou choque por mostrar o beijo entre duas lésbicas idosas, enquanto hoje A Força do Querer fala dos transexuais com grande aceitação. Qual o segredo?”

Silvio respondeu: “Depende de como se aborda o assunto. Se você joga um tema difícil na cara das pessoas, de supetão, elas se assustam. Pensam assim: “Minha família não vai gostar. O que direi aos meus filhos?” Mas, se você for contando aos pouquinhos, conseguirá chegar aonde quiser. A autora da novela está contando a história de uma menina transexual maravilhosamente bem. É uma das personagens mais queridas da novela. E as pessoas dizem assim: “Puxa, essa história é tão boa que vejo como estou errando com meu filho ou minha filha. Estou querendo que eles sejam o que eu quero, e não o que eles desejam ser…”

Então, minha gente, acabou o tempo de chamar a atenção pelo impacto, pela comunicação “pancada”. Isso é coisa antiga. Hoje valem mais as histórias bem contadas, que humanizem os personagens, que, na política, são os próprios políticos.

4) Sobre comportamento pessoal.

“Quando você acredita no sucesso, é um perigo. Você não pode se encantar consigo mesmo, é uma coisa traiçoeira. Tive a sorte de quebrar a cara logo na primeira novela que fiz na Globo, Pecado Rasgado (1978). Eu vinha de um sucesso na Tupi e fui para a Globo me achando a última bolacha do pacote. Aí fiz a novela e foi um fiasco. A verdade é que escrever uma novela sozinho não é tarefa simples, e eu ainda não tinha Know-How”

Então, gente, esqueça a soberba, a história de dançar sobre os louros. A arrogância é a pedra fundamental de uma norma sem exceção: “o político morre pela boca”.

 

Por Jackson Vasconcelos

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