A imagem não perdoa a incoerência

Para reforçar a imagem em alta hoje no Brasil de crítico do PT, Kim Kataguiri tentou usar o ataque que as facções criminosas do Ceará fazem contra o povo de lá e não foi muito feliz, porque não resistiu ao contraditório. Kim Kataguiri representa o Movimento Brasil Livre, está eleito deputado federal pelo DEM com mais de 400 mil votos por São Paulo e aguarda o dia da posse.

Ele gravou e veiculou um vídeo para denunciar o governador do Ceará, que é do PT, por uma manobra política. Ele abriu dizendo: “Pessoal, tenho uma denúncia muito grave para fazer: O que tá acontecendo no Ceará hoje, todo esse caos, toda essa violência, toda essa criminalidade, não é por acaso. É de caso pensado. É um cálculo. É um planejamento. É uma estratégia política, absolutamente, nojenta, que está sendo levada em frente pelo governador petista Camilo Santana…”.


Kim Kataguiri criou o desenho de uma maquinação, que passou pela ideia de repetir a Venezuela, justificar o argumento do PT de ter existido um golpe e outros elementos mais, até chegar à intenção do governador do Ceará de tentar derrubar o presidente Jair Bolsonaro.  

Ciro Gomes, aliado do Governador do Ceará respondeu, imediatamente, com o estilo de sempre, duríssimo:

“Aqui no Ceará somos um coletivo de muitos homens e mulheres trabalhando hoje sob a liderança do governador Camilo Santana. Assim, diante de um problema tão grave, potencialmente, como a onda de terror que as facções criminosas tentam impor ao nosso povo trabalhador o que se impõe a nós é agir e não falar. Candidatos falam, é o que podem fazer, governantes decidem, é o que têm que fazer.

Mais de 570 celulares foram apreendidos nos presídios, 148 bandidos foram presos, três morreram, nenhum civil, e nenhum policial foi ferido. A ação está sendo feita com o importante apoio da força nacional e de outras forças federais. Os cearenses somos gratos por este apoio e não deixaremos diferenças políticas ou partidárias nos tirar do caminho que nosso dever nos impõe: restaurar a ordem e a paz públicas.

Isto dito, pedi permissão ao Governador Camilo Santana para repudiar, com toda a força, as palavras criminosas de dois irresponsáveis destes tantos que infernizam a vida brasileira: deputados de primeira viagem ligados a esta verdadeira facção criminosa que age na internet, o MBL.

Na ânsia incontida de aparecer, estes dois delirantes foram para a internet anunciar um pseudo trama em que, pasme a opinião pública brasileira, todo o sofrimento que passamos juntos com nosso povo seria um plano político maquiavélico para apimentar nossa discordância política com o atual presidente.

Canalhas! É o que são vocês dois! Respeitem o Ceará, respeitem nosso povo, respeitem nosso sofrimento. O que fizeram é simplesmente deplorável, e apenas junta suas vozes à de marginais que tentam aterrorizar nossa gente”.

Kim Kataguiri voltou, meio desconcertado. Pela maneira como ele iniciou o discurso, passou a impressão de ter sido repreendido ou melhor orientado por um senador ligado ao MBL do Ceará. Disse ele:

“Pessoal, mais informações sobre a crise no Ceará. Aliás, aproveito para trazer para vocês mais conteúdo do pessoal lá do Ceará. Especialmente, agradeço ao senador Eduardo Girão, que me ligou me informando exatamente o que está acontecendo. Então, tenho algumas correções para fazer em relação ao vídeo anterior e uma novas críticas a fazer para esse vídeo…

Bem. Basicamente, o que está acontecendo no Ceará – por incrível que pareça – vou começar o vídeo fazendo um elogio a um governador petista . O governador Camilo Santana contratou um novo Secretário de Segurança. Esse novo Secretário de Segurança é capaz, é técnico, é experiente. Não foi nenhum tipo de negociação. Não foi nenhum tipo de indicação política. Ele está lá, porque já demonstrou saber fazer o trabalho para combater as organizações criminosas… Isso quer dizer que o governador não tem culpa nenhuma no que está acontecendo? Não…”.

Daí pra frente, o deputado Kim voltou ao bombardeio… E com algumas contradições, a mais forte delas, quando muda completamente o rumo dos ventos. No vídeo anterior, afirmou que o governador reeleito pediu a ajuda do Governo Federal só agora, para forçar o uso pelo presidente da república da Força Nacional com o objetivo de desestabilizar o governo federal. No novo vídeo, o pedido da ajuda não ocorreu antes, no governo anterior, porque isso prejudicaria a imagem do presidente anterior.

Enfim, que imagem passou o deputado Kim de toda a situação? É isso que nos interessa aqui. Ficou a imagem do oportunismo, do uso político de uma situação altamente grave e cruel para a população do Ceará, simplesmente, porque o segundo vídeo não foi interrompido na primeira parte: no reconhecimento da crítica como erro e num pedido de desculpas, que só surgiu na tela, um tanto envergonhado, no caminho do final.

Não fosse a vontade pura de usar o episódio no Ceará numa luta política, o deputado Kim teria atentado, por exemplo, para a entrevista que o governador do Ceará deu à Revista Conjuntura Econômica, edição de dezembro, logo após ser reeleito. O governador falou sobre os resultados altamente positivos que obteve no primeiro período de governo em vários campos, com absoluta vantagem para a educação. E, deixou claro, reconhece que a segurança pública ainda era algo a resolver e que faria isso no segundo período de governo.

A qualidade da imagem depende, cada vez mais, de um comportamento fundamental: a coerência.

Por Jackson Vasconcelos

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