Será que hoje é diferente?

Dos bastidores, uma lição importante.

Terça-feira, 18 de outubro de 1994.

Dali a 11 dias, eu completaria 41 anos de idade. Era meio-dia e eu, exausto, já com fome, deixava o Edificio Orly, na Rua Marechal Câmara, Centro do Rio de Janeiro. Passei ali sete longos meses a tocar a campanha do deputado Rubem Medina. Ele vencera mais uma vez. Era a oitava consecutiva. O resultado foi apertado. Quase ele não chega. Mas, chegou!

Mal saí do prédio, um rapaz me abordou.

– Cara, roubaram muito voto nesta eleição. Tenho certeza que o deputado fez muito mais na minha região. Mais de mil votos a mais.
– O resultado tá de bom tamanho. Vencemos. Isso basta.
– Cara, eu não aceito isso. O deputado vai achar que eu não fiz o que prometi. Eu devo muito a ele.
– Esqueça, amigo. Assunto encerrado. Tô louco pra voltar à vida normal. Foi uma campanha pesada e cara; dificílima.
– Eu não cobrei nada. Só queria pagar o que o deputado sempre fez por mim.
– Mas, o deputado está feliz.
– Não está não. Tá muito puto, já me disseram.
– Mas, não com você.
– Foda-se se não é comigo! Eu sei que roubaram muito voto. Eu não aceito, porque roubaram votos que eu consegui pra ele.

2014.0408.MedinaJackson

Eu, cansado, depois de um dia difícil, doido pra ir pra casa, subir a serra, chegar a Teresópolis em tempo de almoçar com a família, depois de meses envolvido naquilo tudo, e um cara no meu pé. Ainda com a história de eleição roubada, só pra justificar os poucos votos que dera.

– Deixe eu ir, amigo. Foi bom ver você. Em nome do Medina, cara, muito obrigado por tudo.
– Não sei como você aceita isso sem brigar. Nós fomos roubados.
– E daí. Vencemos. Isso é eleição.

Dei-lhe um abraço. Segui viagem. Louco pra descansar e não pensar mais em campanha, em eleição, em coisa alguma.

Ainda haveria o segundo turno na eleição para Governador. Disputariam Marcello Alencar e Garotinho. Medina queria que eu estivesse na campanha. De jeito nenhum! Pra mim, aquela campanha acabara. Definitivamente acabara.

Cheguei em casa, os abraços da família, um banho frio, um jantar de início da noite, final da tarde e antes das oito da noite, cama. Acordei depois do meio-dia e passei o resto do dia tranquilo. Os telefones, não! Tocavam sem parar. Os filhos atendiam e diziam que eu não estava.

– Pai, estão dizendo que anularam a eleição dos deputados.
– Conversa! Isso não existe. Querem me fazer atender as ligações e entrar na campanha do

Marcello. De jeito nenhum.

Veio a noite. Não assisti à TV. Novamente, dormi cedo. Levantei às oito. Recebi os jornais. Lá estavam as manchetes:

“Fraude faz Rio ter nova eleição parlamentar”.

Começamos de novo. Uma nova eleição. Na segunda, a votação do Medina subiu muito, principalmente, na região trabalhada pelo rapaz que me abordou no dia em que fechamos o escritório de campanha.

Por Jackson Vasconcelos

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